Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Voltaremos na Croácia

Estou admirado, devíamos ouvir o canto das hienas, mas não. De modo geral, a frente comentadora nacional dedicada ao futebol, seja por falta de coragem para se atirar a um selecionador vencedor, por se encontrar tolhida pelo pânico pandémico ou simplesmente por compreender que não se pode ganhar sempre, está a aceitar o afastamento da Liga das Nações com relativa tranquilidade. Seja pelo que for, antes assim. Perdemos hoje, ganharemos de novo amanhã.

Além do mais, podemos dizer que a derrota com a França, por muito melhor que tenham jogado os gauleses, se resolveu num pormenor. Tivesse o até então sublime Rui Patrício segurado a bola no remate de Rabiot – Cristiano que se entenda com ele em Turim – e o 0-0 talvez viesse a bastar para nos qualificarmos. Para nem sequer se valorizar a fulgurante cabeçada de Cristiano ao cair da primeira parte, e que, a ter dado em golo, faria da partida outra coisa.

Acontecera algo semelhante no confronto de Paris, onde Portugal jogou melhor e podia ter marcado. São os “ses” e a felicidade ou a falta dela nos tais pormenores, de que tantas vezes beneficiámos, que nos falharam agora. E que fazem da fase final do Europeu – e logo de sobrevivermos no “grupo da morte”, com a Alemanha e, uma vez mais, a França! – o único grande objetivo da Seleção para 2021 – ah, sim, e o apuramento para o Mundial, mas aí não haverá franceses…

Dito isto, sobra sempre algum aspeto do duelo da Luz que dispensa diploma para se sublinhar, sem entrar pela evidente carência de intensidade e de agressividade, que os nossos homens substituíram por um ritmo excessivamente cauteloso, mesmo medroso, com enervantes e repetidos passes para trás. Desde cedo, foi notória a má forma de Bernardo Silva – que o tornou, aliás, do “Bernardo e mais dez” de Guardiola num suplente do City – a noite desinspirada de Bruno Fernandes e de Cristiano, a imaturidade de João Félix, a fraca produtividade de William, a falta de velocidade que se vai fazendo notar em José Fonte, a deplorável condição física de Raphael Guerreiro… Foram muitos contras, a que se juntou Fernando Santos, tardio a mexer na equipa e depois rápido a fazer alterações por atacado. Não era o nosso dia. Voltaremos com uma vitória na Croácia.

Lucas Veríssimo, que aos 25 anos nunca vestiu a camisola canarinha, parece que vai mesmo ser o sexto central do Benfica, com a promessa de ser o primeiro, apesar de os dois atuais titulares somarem, juntos, mais de 200 internacionalizações pelas suas seleções – cujos onzes iniciais há dias integraram. E com o jogador do Santos virá também Guga, do Atlético Mineiro, como se outro lateral, Gilberto, não tivesse chegado ontem… Jorge Jesus que não contrate um “6” competente, ou não invente um depressa, e nem com mais 20 reforços resolve o seu maior problema.

Parágrafo final para José Peseiro e para a sua inesgotável capacidade de descer aos infernos. Em três jogos de qualificação para o Mundial de 2022, a seleção da Venezuela soma três derrotas e ainda não marcou qualquer golo. Será amanhã, frente ao Chile? Haja fé.

Outra vez segunda-feira, Record, 16nov20