Vítor Pereira não tem perdão

Quando vim para a direção de “Record”, os bons espíritos agitaram-se. Mais os externos que os da casa, valha a verdade. Afastado do jornalismo especializado em desporto há duas décadas, ainda por cima oriundo de um jornal maldito, o “24 Horas”, a grande corporação dos sempre os mesmos da bola – que não havia sido consultada e, portanto, não “autorizara” a minha escolha – reagiu com sorrisos de desdém, insultos velados e previsões expressas de rápido insucesso. Enganaram-se, aqui estou decorridos quase nove anos. E mesmo que saísse amanhã, da amargura dessa derrota já ninguém os livrava.

Quando André Villas-Boas partiu para o Chelsea, Pinto da Costa tirou da manga o seu sucessor dinástico: o ex-ajudante do ex-ajudante do mestre. E Vítor Pereira, que já trabalhava com os jogadores, levou o seu novo papel a sério e tentou, e tenta, agarrar esse comboio que só passa uma vez.

Não acredito que o êxito pegue de estaca, como não creio que os generais ganhem as guerras sentados às secretárias se os líderes no terreno não forem competentes a comandar as tropas. Mas aprecio a humildade de um homem que sabe do que é capaz e tem a ambição de triunfar, um homem que dá 10 a zero a colegas de profissão que se oferecem, com as perúas ao lado e em bancadas escolhidas a dedo, para substituir colegas de profissão prestes a cair em desgraça. É a diferença entre a oportunidade e o oportunismo.

O certo é que Vítor Pereira não pediu licença para entrar neste circo de gente mesquinha e pretensiosa, e teve ainda o arrojo de se armar em “fashion victim”, com aquelas camisas e gravatas azuis. Não tem perdão. E agora que o FC Porto soma três jogos sem ganhar, podemos finalmente deitar de fora a nossa cabecinha invejosa e prever o seu breve despedimento. Volto a desprezar a víbora – e desejo-lhe sorte.

Canto direto, publicado na edição impresa de Record de 1 outubro 2011

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