Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Vai ser até vir a mulher da fava-rica

No futebol, muito ou quase tudo se resolve nos pormenores. Tivesse Taremi concretizado em golo aquele remate rasteiro que executou poucos segundos após ter substituído Uribe, já para lá dos 90 minutos do clássico de Alvalade, e ainda hoje Sérgio Conceição estaria a ser endeusado pela oportunidade da entrada do iraniano, que teria dado a vitória “in extremis” ao FC Porto.

Aconteceu que o génio foi outro, o técnico adversário, Rúben Amorim, que reservou para o segundo tempo o melhor material em armazém, recorrendo não só à utilização do desejado, João Mário, como de Vietto e Sporar – este último o tal com quem Amorim “não vai à bola”, de acordo com o arguto, sibilino e esclarecido Augusto Inácio – que viriam, a três minutos do fim, a participar decisivamente na jogada que deu o empate. Um resultado que o Sporting fez por merecer, até como corolário do já notável trabalho de construção de uma equipa. E que castigou os portistas pela falta de pulmão – ou de ambição? – que não lhes permitiu procurar o 3-1.

Mas considerar relevantes estas minudências não basta, é preciso o espalhafato da polémica. Vamos por partes. Quando o árbitro apontou para a marca de penálti, por pretenso derrube de Zaidu a Pedro Gonçalves, Sérgio Conceição fez a fita do costume, como se lhe fosse possível concluir, sem ver as imagens, aquilo que ninguém foi capaz de garantir em absoluto após dezenas de visualizações. Exista motivo ou não, penálti contra o FC Porto é que não pode ser! E toca a despejar a ira no apitador.

Entretanto, o VAR levanta a dúvida – com a interminável questão da intensidade – e Luís Godinho revê o lance e reverte a decisão. Também sem saber se foi ou não falta, nem isso lhe interessar, Rúben Amorim excede-se, ultrapassa na “intensidade” o palavreado de Sérgio – ele diz que foi ao contrário e sinto-me inclinado a crer que fala verdade – e é expulso. Exista motivo ou não, anular um penálti a favor do Sporting é que não pode ser! E toca a despejar a ira no apitador.

Parece evidente que a mão de Zaidu nas costas de Gonçalves tanto pode ter desequilibrado o avançado do Sporting, que não estava apoiado, como nada ter contribuído para esse desequilíbrio. E sendo assim, como alguém tem a missão de decidir, a avaliação do árbitro devia ser respeitada. Mas estamos no país do vale tudo e nas mãos de uma organização que tolera excessos e aplica castigos ridículos. Daí que treinadores e dirigentes se sintam à vontade para ir além dos limites e espalhem nuvens de fumo para esconder as próprias responsabilidades. E as lamúrias de Frederico Varandas, no final da contenda, com a esfarrapada lengalenga da vítima perseguida por todos os malvados do Planeta, confirmam que continuaremos neste lamentável registo até vir a mulher da fava-rica.

O último parágrafo vai para Pepe, que fez em Alvalade mais um jogo irrepreensível depois dos três consecutivos ao serviço da Seleção. Foram quatro partidas – cumpridas integralmente – apenas em 11 dias. Para um futebolista a caminho dos 38 anos é uma proeza digna de um autêntico fenómeno. Chapeau!

Outra vez segunda-feira, Record, 19out20