Lição de vida em dias difíceis

Percorri o caminho como corredor solitário e pus demasiado de lado os afectos, habituei-me a rir e a sofrer sozinho. Sei hoje, após os duros dias que a vida me reservou como privação suprema, que também aí errei.

Não me surpreenderam os amigos poucos, que poucos cultivei e quero cultivar, que me abraçaram quando as lágrimas de perda caíam ao arrepio da vontade. Nem as duas dezenas de jornalistas mais velhos com os quais trabalhei nos últimos anos, aquela metade da redacção do Record que lá permanece por mérito próprio. Os que poupei, por indulgência e necessidade, pouparam-me agora ao exercício da hipocrisia – agradeço-lhes por isso, como fico grato aos outros por terem sofrido comigo.

De onde me veio a surpresa foi dos 30 (trinta!) jovens jornalistas do mesmo Record – alguns até que já saíram para novos desafios – que me fizeram chegar um abraço através da mensagem mais carinhosa ou de uma simples palavra nas redes sociais. É que esses gestos, vindos de jovens a quem não terei proporcionado as melhores condições de trabalho e a quem seguramente não amparei com o cuidado que era minha obrigação, constituem para mim uma enorme lição de generosidade e solidariedade, uma lição de vida.

Ainda por cima, ao tratarem-me, tantos deles, por “director”, mais fizeram crescer a luzinha desse orgulho a que me agarro numa altura em que nada faz sentido. Obrigado, camaradas.

Observador, Sábado, 16JUL15

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