Uma crítica a Record por causa dos “lagartos” e a devida reparação

From: Renato Afonso [mailto:renato…
Sent: terça-feira, 22 de Fevereiro de 2011 19:11
To: Record
Subject: O voo da águia – 21 de Fevereiro de 2011

Sr. Alexandre Pais,

Antes de prosseguir com o motivo pelo qual lhe escrevo este mail, compete-me identificar-me adequadamente para melhor compreender a razão da minha indignação para com a coluna supracitada. O meu nome é Renato Afonso, estou prestes a comemorar o meu 30º aniversário, sou adepto do Sporting, “nasci” sócio com lugar cativo e por razões financeiras em conjugação com o clima de ódio do nosso futebol deixei de ir ao estádio regularmente.

Compete-me ainda informá-lo que os meus pais são donos de duas papelarias em Lisboa, pelo que sempre li jornais e orgulho-me de ainda o fazer em papel, não sendo propriamente um adepto da leitura online. O Record foi o primeiro jornal que comecei a ler regularmente e, até hoje, é o único jornal desportivo que leio diariamente – creio que os meus restantes hábitos de leitura não serão relevantes para este mail. Leio o Record por considerar que é o jornal desportivo mais imparcial e por ser o que mais destaque dá a outras modalidades, ou não praticasse eu basquetebol e gostasse de ler sobre o “meu” desporto.

Ontem, pela primeira vez na minha vida, senti-me ofendido com algo escrito na coluna da sra. Marta Rebelo. Compreendo que tenham diversos cronistas e que estes não escondam a sua filiação clubística. Compreendo também que estas colunas reflectem apenas a opinião de quem as escreve e não a opinião do jornal nem do seu editor. Gosto inclusivamente de ler a opinião de pessoas que não são do meu clube, porque também é bom saber qual a perspectiva dos outros. Com algumas colunas concordo, outras nem tanto, mas em momento algum me sinto ofendido com a opinião de outros.

A sra. Marta Rebelo vive num mundo ilusório em que o seu clube é o maior da Europa (minha opinião sobre ela) e gosta de não só enaltecer o seu clube como também rebaixar os elementos que fazem parte dos seus clubes rivais. Apesar de achar que não o deveria fazer, afinal estou a ler o Record e não o órgão oficial do Benfica, consigo aceitar que o faça, visto ser um espaço de opinião. Contudo, em momento algum poderei aceitar uma coluna como a de ontem em que se refere aos sportinguistas como “lagartos” em todo o texto.

Aceitarei eu que ela se refira ao Alvalade XXI como o estádio mais feio do mundo? Não concordo, mas tenho de aceitar a sua opinião apesar de ser contraproducente em dia de clássico. Não aceitarei a referência a “lagartos”. O símbolo da minha equipa é o leão, tal como o do Benfica é a águia o ou do Porto o dragão. O termo “lagarto” tem um sentido pejorativo tal como o termo “lampião”, motivo pelo qual é amplamente utilizado pelas claques de futebol. Sinto-me ofendido quando alguém me trata por “lagarto”, motivo pelo qual não trato benfiquista algum por “lampião”.

Infelizmente, já assisti a situações muito desagradáveis que começaram e escalaram devido à utilização dos termos acima mencionados. Dito isto, em dia de jogo, qual foi o objectivo da Marta Rebelo em ofender os sportinguistas? Exacerbar ódios que não deveriam sequer existir? É que realmente, apenas uma de duas coisas poderá acontecer: ou pretendeu ofender os sportinguistas ou nem sequer sabe a conotação associada à palavra. Se estamos perante o segundo caso, creio então que não deverá ser o lugar dela escrever sobre futebol, porque claramente não compreende o meio sobre o qual escreve e chamo-lhe apenas a atenção para esse facto. Se ela pretendeu ofender os sportinguistas, tudo ganha contornos mais sérios.

Sei que não fui o único sportinguista ofendido com tais palavras e não sei se serei o único a expressar o meu desagrado. Contudo, sabendo que “A Bola” e o “O Jogo” são jornais com uma conotação clubística mais evidente, ou pelo menos assim é entendido pelas massas, não será de estranhar que a maioria dos adeptos do Sporting prefira comprar o vosso jornal e creio que ofender tal massa adepta não é obviamente do interesse do vosso jornal.

Repare, nada tenho contra a opinião da sra. até porque defendo liberdade jornalística e liberdade de opinião, mas a sra. Marta Rebelo desrespeitou repetidamente milhões de adeptos do Sporting. Será que ela também trata os sportinguistas por “lagartos” na sua cara? Ela não é minha amiga nem sequer conhecida, pelo que não vejo motivo algum para perdoar tal ofensa sem que ela se retrate publicamente pelo que fez.

Não sei se tenho o direito de fazer tal exigência (e se não o tiver enquanto leitor de praticamente duas décadas, agradeço que me comunique por esta via), mas exijo que a sra. Marta Rebelo se retrate perante os sportinguistas na sua próxima coluna, porque caso não o faça não só deixarei de comprar o jornal como também incentivarei todos os sportinguistas que conheço a também o fazerem. Não considere isto uma ameaça, porque de ameaça nada tem, mas sim uma notificação de desagrado perante uma situação que nunca antes tinha visto no Record.

Não peço que o editor do jornal se retrate porque, mais uma vez, as palavras não foram escritas por ele. Dito isto, pretendia ter enviado este mail durante o dia de ontem mas foi-me de todo impossível por falta de tempo, pelo que apenas o envio hoje. Não considere que esta manifestação de desagrado está associada ao resultado de ontem, porque nunca foi a minha maneira de ser. Inclusivamente, considero que o Sporting está onde está por culpa própria e não é um Sporting-Benfica que decide uma classificação final.

Desde já agradeço pela sua atenção em ler uma mensagem tão longa e lamento pelo tempo que lhe ocupei. Espero que a sra. Marta Rebelo se retrate e refreie de ofender os adeptos dos demais clubes, pelo que continuarei a comprar e a ler assiduamente o vosso jornal até à próxima coluna desta sra. Espero ainda que o Record mantenha o nível de profissionalismo e excelência jornalística que o caracterizam, não embarcando em momento algum no clima incendiário tão fomentado no futebol português.

Com os melhores cumprimentos,

Renato Afonso

Nota da QdoC – Caro leitor, uma única palavra: chapeau!

LAGARTOS, NÃO

Não há volta a dar. Enquanto eu for diretor de Record, o leitor encontrará aqui um espaço de livres pensadores. E pode até, na mesma edição, em textos da autoria de convidados ou de jornalistas da casa, acompanhar a defesa de uma ideia e logo a seguir o seu contrário.

Esta independência cria, obviamente, imensos problemas – porque faz sair da toca muitos inimigos da liberdade de expressão e agentes dos diversos interesses corporativos – mas é a garantia de sobrevivência de um jornal que optou por percorrer este caminho.

As colunas de opinião assinadas por colaboradores externos apenas comprometem os próprios e não o Record – como se explica no final dos respetivos artigos – o que não retira à direção do jornal o dever de tentar evitar eventuais excessos ou de reparar os seus efeitos.

E é na convicção de que o termo “lagartos”, aqui utilizado há dias por uma colunista, ofende alguns leitores, que lhes quero deixar, em nome do jornal – e não da autora que naturalmente responde por si e tem o seu estilo – o que considero devido: um pedido de desculpas.

Passe curto, publicado na edição impressa de Record de 25 fevereiro 2011

Partilhar

Os comentários estão fechados.