Uma boa gargalhada

Não fui propriamente criado num ambiente de bom humor. Por
certo porque as dificuldades da vida de outros tempos, que se voltassem
tornariam as atuais simples contratempos – e não, não estou a fazer humor –,
não fossem propícias a brincadeiras. Talvez por isso, passei pela idade da anedota, um período da
adolescência em que havia quem me achasse alguma graça, o que me levaria aos
palcos de salas de associações de bombeiros e de sociedades ditas recreativas.
Já no Conservatório Nacional, acabei por me estrear com uma modesta
participação – sinal de que o talento, na verdade, não era muito – numa comédia
de Raul Brandão, O Doido e a Morte, representada
no Clube Estefânia, então uma referência do teatro amador lisboeta. A partir
daí, as responsabilidades profissionais e familiares afogaram primeiro o ator
que existia em mim e depois o encenador que dera os passos iniciais com trabalhos
prometedores. Da comédia ao drama o caminho é demasiado curto.

Como sou tímido, entrei assim na idade da carranca, uma fachada típica de autodefesa e que  afastou muitas pessoas que teria valido a
pena conhecer, mas igualmente umas centenas de imbecis que, com a graça de Deus – adequada expressão esta
–, hesitaram no ataque, travaram na aproximação ou voltaram mesmo para trás, o
que quer dizer que foram chatear outro.

Pude, com isso, atravessar tranquilamente a fase da falta de
confiança e da necessidade de auto-afirmação, e a seguir, com a chegada da
maturidade, a fase da auto-estima e da consciência crescente de capacidades e
limitações. Foi neste último período que descobri a qualidade que me endireitou
de vez a vida: a da autocrítica severa, que só não se tornou doentia porque me
habituei também a rejeitar os excessos de qualquer natureza. E hoje não admito
fazer mal ou negligentemente o que pode e deve resultar bem feito.

Quando se ganha esse sentimento de autocrítica, recebe-se
como bónus outro trunfo precioso: a capacidade de darmos uma boa gargalhada de
nós próprios. Ou seja, passamos a reconhecer que somos a anedota. Quando trocamos os nomes, quando nos esquecemos das
chaves, quando perdemos os óculos, quando enfiamos barretes, quando pomos nódoas na gravata, quando nos enganamos nas
contas, quando adormecemos no cinema ou apenas quando ignoramos o óbvio, enfim,
nas banais situações do dia a dia.

Nessas alturas, não devemos disfarçar, mas assumir os factos
e desfrutá-los. E logo começamos a compreender melhor os erros e as
imperfeições dos outros – e a encarar a vida com menos irritação e mais
otimismo. Afinal, de todas as personagens que transportamos, o palhaço é a
única que é feliz. 

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 5 setembro 2013. Tema de Sociedade da semana: o humor

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