Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Uma boa entrevista de João Querido Manha ao Briefing

Briefing, sexta, 6 dezembro 2013

Pela quinta vez na sua carreira de 35 anos de jornalista, João Querido Manha voltou à casa onde conhece todos os cantos, o jornal Record. Sabe que não voltará a ser possível repetir os 100 mil exemplares de tiragem por dia. A aposta é no online e no multimédia. “Queremos ter uma plataforma online onde corra imensa produção multimédia”, afirma. Não tem dúvidas de que o site do jornal vai evoluir para um canal de televisão.

Briefing | Qual foi a sua reação quando recebeu o convite para dirigir o Record?
João Querido Manha | Foi de surpresa, era algo que estava fora do meu pensamento há mais de 10 anos. Desde que eu tinha saído de diretor do Record, onde era diretor-adjunto, que isso era um capítulo encerrado na minha vida e tinha seguido por outros meios, embora ao fim de alguns meses de ter saído desse cargo tivesse sido convidado a colaborar com o grupo. Portanto, desde princípios de 2004 que tenho uma ligação em várias “pistas” diferentes com este grupo. Fui consultor, formador, colaborador, quer do Record, quer do Correio da Manhã, e por vezes era, digamos, ouvido para algumas dúvidas ou ideias, sobretudo na parte da evolução para um contexto multimédia. Depois acabei por participar, juntamente com a Universidade do Porto, na formação de jornalistas do grupo Cofina e isso talvez me tenha aproximado mais desta solução.

Briefing | Começou por fazer algumas mudanças no jornal e na estrutura da redação desde que assumiu a direção. Porque é que o decidiu fazer?
JQM | A maior parte delas, as internas, tem a ver com o regresso a uma ideia de jornal que era a minha há 10 anos e há 15…

Briefing | E qual é essa ideia?
JQM | O jornal fica, a meu ver, mais compreensível para os leitores porque abre com um assunto exaustivo, a que nós chamamos abertura. Segue-se uma zona de reflexão editorial, com uma área de opinião que achamos marcante e que foi aquela em que a minha intervenção foi mais pessoal, inclusive com o convite para vários colunistas novos do jornal. Depois, o jornal segue até uma outra zona de paragem e reflexão e aumentámos um pouco o espaço dedicado aos outros desportos. Isso também é um regresso à minha matriz de jornal e isso não tem nada a ver com a liderança anterior, que eu respeito muito e recebi um bom legado, mas sim com a origem do Record, onde estava a ideia de fazer um jornal por contraponto ao outro jornal desportivo que já existia que dedicasse mais espaço e tempo aos outros desportos. Como conheço este jornal desde 1978 entendi que havia aqui uma matriz, um legado. Esta é a quinta vez que eu reentro no Record…

Briefing | Quando saiu do jornal, em junho, Alexandre Pais, o anterior diretor, disse que se fechava um ciclo e que o Record continuaria a liderar a imprensa desportiva com novas soluções. Sente-se o protagonista dessas novas soluções?
JQM | Tenho aqui uma vantagem: conheço muito bem toda a gente com quem trabalho. Não demorámos muito tempo a apresentar-nos e a conhecer-nos – há pessoas aqui com quem estudei. Entendo isto como mais uma etapa na vida do Record e acho que sei o que é que se pretende e defini objetivos que foram subscritos pela empresa. Agora, é trabalhar.

Briefing | E quais são esses objetivos?
JQM | O jornal em termos de circulação – não só este, mas toda a imprensa mundial – não tem a nada a ver com cenário que eu deixei aqui, onde vendia mais de 100 mil exemplares por dia de média no ano todo e por vezes tinha tiragens superiores a 200 mil jornais, e não voltará a ser. Mas há o mesmo objetivo que havia nesse tempo e que é a maior quota de mercado possível. É isso que nós pretendemos. O jornal é um pilar desta empresa como produto vendável. Por outro lado há toda a vertente online e digital que é muito estimulante para mim pois fui fundador do Record online.

Briefing | Nestes tempos de recessão de que quebra de circulação do papel como se conquistam novos leitores?
JQM | O objetivo é sempre conquista novos leitores em todas as plataformas. A marca Record vai-se desenvolver nestas plataformas diferentes e portanto vai ser complementar. O que não se pode ter é a mesma oferta no digital e no papel pois isso é que será um erro. Não é uma descoberta mas é algo com que os editores têm dificuldade em lidar. Estive 10 anos fora dos jornais e também tive muito tempo para refletir sobre isso e tenho algumas ideias. Vamos ver se funcionam. O que quero realmente é a mesma marca em três plataformas: digital, papel e televisão. O site para mim é tudo e eu acho que no futuro, que é já, ele vai ser um canal de televisão. Vamos ver como é que isso se desenvolve mas é por aí.

Briefing | É uma evolução que decorrerá ao mesmo tempo com a colaboração com a CMTV?
JQM | Na CMTV temos um espaço definido, que é a Hora Record. A estação tenderá a ser um grande canal de televisão, tem os seus exclusivos e nós contribuímos com uma parte substancial dos conteúdos de desporto mas temos capacidade para produzir muito mais do que aquilo que a CMTV pode emitir.

Briefing | O Record quer ter uma televisão online?
JQM | Queremos ter uma plataforma online onde corra imensa produção multimédia.

Briefing | Como é que tem corrido a experiência com os conteúdos premium do site?
JQM | Tem corrido bem da maneira, que foi corajosa, como foi iniciado. Precisa de ter uma evolução e estamos a trabalhar nisso. É para manter e fortalecer. Quero que o Record Premium seja um pilar deste projeto.

Briefing | Como é que as redes sociais entram nesta estratégia?
JQM | Temos 300 mil seguidores no Facebook. Somos pioneiros nas redes sociais na imprensa e neste grupo – eu fiz essa formação aqui para introduzir os jornalistas no uso das redes sociais e internet. Nós não trabalhamos para o Facebook nem para o Twitter nem para o Instagram. Queremos utilizá-los como parceiros de fortalecimento da nossa comunidade e é dessa forma que os usamos.

Briefing | A vossa concorrência tem projetos nos países lusófonos. Também está no horizonte do Record ou a abordagem é outra, tendo já o online como perspetiva?
JQM | Não é um objetivo. Acredito que a marca Record na comunidade lusófona é mais global do que particular. Os projetos em que nós podíamos ser desafiados para lançar nesses países seriam locais. Não temos know-how desse mercado e portanto não é, à partida, nada que nos interesse. O que nos interessa é projetar o interesse que esses países têm sobre o desporto em Portugal e tenham acesso a isso. Sabemos que o Record é um excelente veículo de acesso nesses países e particularmente no Brasil, onde há uma larga faixa de seguidores nossos.

Briefing | O que é que o jornalismo de hoje diz a um jornalista formado em agência e que está no terreno desde 1978?
JQM | Para um jornalista é sempre a mesma coisa. Há acontecimento, factos e há vontade das pessoas em conhecerem esses factos. Nós estamos no meio e temos que lidar com os factos da melhor maneira, torná-los compreensíveis para as pessoas que os queiram conhecer. Quando as pessoas não tiverem vontade de conhecer o que se passa o nosso trabalho deixa de ter razão de ser. Não creio que isso vá algum dia acontecer.

Briefing | Como é que olha para conceitos como cidadãos-repórteres e jornalista-ativista?
JQM | São fenómenos passageiros e temos que ter uma grande presença de espírito sobre isso e não reagir de uma forma emotiva.

Briefing | O que é para si hoje um jogo de futebol? É mais difícil escrever uma crónica sobre um jogo do que quando começou a carreira?
JQM | Mais difícil não será, pois hoje temos mais fontes de informação, por vezes até em excesso. Lido muito bem com isso e o meu hobby é, há muitos anos, a estatística do desporto mas a transposição disso para o jornal é diferente. Mais do que a crónica de um jogo de futebol – e nisso mudou bastante – hoje o que existe é um conjunto de dados que têm de ser extremamente rigorosos. Se erramos no jogador que atirou a bola ao poste ou no nome de alguém que estava fora de jogo sei que temos alguém no dia seguinte que dá por esse erro. Por outro lado, o feedback é imediato e isso é fantástico.

Briefing | Nas redes sociais é muitas vezes “conotado” com o Benfica. Como é que gere esse tipo de situações?
JQM | Não me causa nenhum problema e até prefiro assim pois quem me conhece sabe como eu sou e quem não me conhece sabe mais tarde. Não tenho nem nunca tive nenhum problema e sou a favor de tudo o que é o caminho da transparência. Se as pessoas acham que é assim não sou eu que vou contrariá-las. Ando nisto há 35 anos e se isso tivesse algum peso já me tinha causado problemas há mais tempo. Neste momento seguramente que não vai causar, nem nunca causou.