Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Uma bela reflexão de Nuno Perestrelo sobre o Belenenses vs B SAD

Na sua página do Facebook, o jornalista Nuno Perestrelo publicou uma lúcida reflexão sobre a querela que opõe o nosso (dele e meu) Belenenses à B SAD. Com a devida vénia, e um abraço amigo, aqui transcrevo o texto do Nuno (o título é meu).

BECO SEM SAÍDA

Nas últimas horas tenho ouvido vários amigos belenenses sobre a decisão do Tribunal da Propriedade Intelectual que, caso venha a ser confirmada após recurso do clube, permitirá à SAD voltar a utilizar as marcas Belenenses nas competições profissionais.
Uns quantos (poucos, numa amostra considerável) identificam-se com a SAD.
Outros (a esmagadora maioria) continua a negar qualquer laço afetivo àquela equipa.
Observador atento da realidade do Belenenses – primeiro emblema que enquanto jornalista acompanhei diariamente, já lá vão quase 30 anos! – parece-me que clube e SAD estão num beco sem saída.
Explico: um clube é constituído pela vontade dos seus sócios. É, no caso português, uma associação e, enquanto associação, vive de decisões tomadas pelas maiorias. No caso do Belenenses é evidente há vários anos que a maioria nada quer com a SAD, que a maioria sente ter sido mal tratada pela administração da SAD e que a maioria se divorciou de vez daquela equipa no dia em que aprovou, em AG, a venda das ações que o clube ainda tinha na dita SAD.
Ora, por muito que agora alguém apele a um entendimento entre clube e SAD, a verdade é que nisto do sentir não há grande margem para racionalismos… Da mesma forma que um casamento é feito por amor e um divórcio pela falta dele, não há nesta relação algo a unir as partes.
E se os sócios não querem uma união, não há retorno possível.
A SAD, por outro lado, está também num beco sem saída. Pode ganhar todos os processos em tribunal (e neste caso não há sequer garantias de ganhar o recurso, pois em primeira instância outro juiz decidiu o oposto do que agora foi decretado), pode até declarar-se Belenenses, cantar o hino e voltar a meter a Cruz ao peito; pode conseguir que a Liga e os adeptos dos outros clubes lhe chamem Belenenses, mas falhará sempre onde realmente importa: em ser, para os Belenenses… o Belenenses. Para os sócios, de que falava lá atrás.
Com uma sentença que se anuncia como vitória, que fazer afinal? Chamar Belenenses à equipa que joga na Liga?
E depois, que chamar às equipas de sub-23, à equipa B do campeonato de Portugal, às equipas de formação inscritas na AF Lisboa?
Afinal, o juiz foi claro: só nas competições profissionais (I e II Liga) a SAD pode usar as marcas Belenenses. Logo, não poderá fazê-lo se um dia descer à III Liga, ou ao Campeonato de Portugal? E na Taça de Portugal? E em torneios e jogos particulares? E nos treinos no dia a dia?
Afinal, eu posso até chamar Cristiano Ronaldo ao meu filho. Mas ele nunca será o CR7 da Juventus. Ele, eu, e toda a gente o sabemos…
E interessa-lhe ser Belenenses jogando no Jamor, ou na Comporta, ou em qualquer outro estádio? E interessa-lhe ser Belenenses se tiver de ir ao Estádio do Restelo jogar contra o Belenenses para a Taça de Portugal, por exemplo? Ou nas camadas jovens? Num Belenenses-Belenenses no Restelo, quem será a equipa do Matateu? (a do Restelo, parece-me óbvio).
Digo-o há vários anos e acabo sempre a repeti-lo: deve, sim, haver um entendimento. Ou, por outras palavras, um divórcio sem mágoas. A SAD continua o seu caminho, longe do coração dos Belenenses, procura uma identidade que lhe permita afirmar-se e livrar-se de ambiente que lhe é tóxico (basta ler os comentários nas páginas dos jornais desportivos para perceber que a vitória em tribunal não teve eco na perceção pública do caso).
Os adeptos do Belenenses merecem isso. O futebol português merece isso. A Liga profissional merece isso.
Nuno Perestrelo