Um talento arrasador

Depois de ter visto os funerais do toureiro Manuel dos Santos, em 1973, do ciclista Joaquim Agostinho, em 1984, de Amália, em 1999, e de Eusébio, ainda há dois anos, não há cerimónia fúnebre que me esmague pelo aparato: acho, mesmo, que os quatro exemplos que dou não terão paralelo no futuro. Afinal, a televisão leva-nos hoje junto da sepultura ou do crematório, por um lado, e por outro as figuras consensuais tornaram-se fenómenos do passado.

O aniversário da CMTV não me permitiu dedicar, como seria natural, a crónica de há uma semana à morte de Nicolau Breyner. Faço-o agora não porque o funeral tenha impressionado no terreno, mas porque os canais de TV entenderam que a grandeza do artista, e a emoção provocada pela partida inesperada, mereciam longas horas de emissão – e como tal agiram.

E foi reconfortante ver como um homem sem a aura “divina” de Agostinho, Amália ou Eusébio, e seguramente incapaz de executar “dossantinas” – o passe de muleta criado por Manuel dos Santos – conseguiu, na altura do adeus, agarrar aos televisores uma multidão de portugueses entristecidos. Em tempos de aplausos fáceis, eis que um ator nos deixou em lágrimas apenas por uma simples qualidade: um talento arrasador. Era o teu, Nico.

Antena paranoica, Correio da Manhã, 26MAR16

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