Um barco, uma guerra e um casamento

A 28 de setembro de 1940, o meu pai, que prestava serviço militar na Marinha, enviou do Funchal, de bordo do contratorpedeiro Douro, um postal para a minha mãe, em Lisboa, no qual escrevia: “Afinal, houve paquete para levar o correio antes do que se esperava. Mas ainda te não posso dizer nada a respeito do movimento do navio”. Eram momentos de incerteza, estava-se em plena Segunda Guerra Mundial e o receio de que Portugal pudesse vir a participar no conflito não se dissipava. Por outro lado, os meus pais tinham casamento apontado para daí a meses e pairava a dúvida sobre a sua realização.
Felizmente, tudo acabou por correr bem e a cerimónia realizou-se a 1 de março de 1941, na igreja de Santa Catarina, em Lisboa, na calçada do Combro, perto do Chiado, numa rua que tinha imensas sapatarias – hoje, não resta uma!

O espetro da guerra continuaria presente na vida dos meus pais, que só em 1945, após o armistício, começaram a tratar do aumento da família e da futura vinda ao Mundo do escriba.
Tomei consciência desses anos difíceis, ou melhor, ainda mais difíceis porque toda a década de 40 foi má, através dos relatos do meu pai, que falava com reverência do seu contratorpedeiro – de cujo convés se atiravam à água, com uma corda atada à cintura, os marinheiros que não sabiam nadar. Um dia, ingenuamente, perguntei-lhe: “E se aparecesse um submarino alemão, vocês afundavam-no?” A resposta retrata uma época: “Bem, isso seria complicado. Só para pôr o barco a navegar eram precisas duas horas…”

Parece que foi ontem, Sábado, 2MAR17

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