Tributo à filosofia da coisa

“Quase todos os homens que valem muito têm maneiras simples e quase sempre as maneiras simples são vistas como indício de pouco valor” – Giacomo Leopardi, poeta e filólogo italiano

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Desapareceu há um mês uma grande figura do futebol português: Fernando Cabrita (na foto com o jornalista Neves de Sousa, em 1983). Jogador de eleição, depois treinador de algum sucesso, viveu o momento alto da carreira ao levar a Selecção Nacional – à frente de uma comissão técnica com Toni, José Augusto e António Morais – ao 3.º lugar do Euro’1984. Era um homem bom e afável, mas de trato difícil com o verbo. Foi assim uma espécie de percursor de Jorge Jesus no domínio da palavra – e como bombo da festa de uma crítica pretensiosa e bem falante. Além do famoso “deambulem, deambulem…”, é-lhe atribuída a mais emblemática frase de incentivo aos jogadores: “Rapazes, vamos a eles que nem uns tarzões!”

 Em 1983, na véspera dos desafios com a Polónia e a União Soviética, que nos qualificariam para o Euro, deu uma entrevista ao semanário Off-Side e ao jornalista Mário Fernando – hoje responsável pelo desporto na TSF e comentador – em que explicou, de forma algo enviesada, a sua posição antitabagista. Face ao ar confuso do Mário, Cabrita rematou com outra frase célebre: “Está a ver a filosofia da coisa, hem?”

Nos últimos 30 anos, espalhei perplexidade idêntica nas redacções por onde andei, ao utilizar a filosofal expressão. Não sendo, como é óbvio, uma criação de Cabrita, o certo é que com ela prestei tributo a uma pessoa simples e especial. E vou continuar, gozando ainda com o esgar de desdém de quem não me conhece… Não sei se estão a ver a filosofia da coisa.

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Fernando Cabrita: queria ser oficial da Marinha mas foi Oficial do Infante

Filho de um operário da indústria conserveira de Olhão, queria ser oficial da Marinha. Começou por jogar no Olhanense, em 1942, emigrou para França, actuou no Angers e regressou para seis grande épocas no Sp. Covilhã. Foi internacional e nunca sofreu um castigo em mais de 20 anos como jogador.  Como treinador, Cabrita dirigiu vários clubes e por duas vezes o Benfica, que levou ao título, em 1968. Era oficial da Ordem do Infante D. Henrique e morreu em Loures, aos 91 anos.

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