Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Três casos, seis protagonistas

1. Vercauteren e Jesualdo Ferreira

Passam de vez em quando pelo futebol português uns fulanos tão cinzentos que ou não deixam por cá qualquer recordação ou nos fazem até felizes mal os vemos pelas costas. Não é o que sentimos com a partida de Franky Vercauteren, que é uma figura do futebol. No final do pouco tempo que lhe deram para o seu dificílimo trabalho – quase missão impossível para um treinador estrangeiro, na atual situação do Sporting – lega-nos uma imagem indelével: a de uma personalidade de enorme craveira. Fica-nos a saudade, agora que Godinho Lopes fez, enfim, a opção que tardava e pôs Jesualdo – um dos poucos treinadores capazes de dar a volta à calamidade que é o futebol do Sporting – no lugar certo. Não a “organizar”, a “supervisar” ou a “ponderar”, mas a fazer, de bons jogadores, uma equipa. Porque do que se trata é de ultrapassar a ameaça da descida de divisão. Deixemo-nos de tretas: hoje, é só isso que interessa.

2. Ricardo Carvalho e Simão

A exibição do central madridista na partida contra a Real Sociedad é pouco menos do que incrível, tal a qualidade. E se já perto do fim do jogo, um derrube não o tivesse impedido de isolar Cristiano para o quinto golo do Real Madrid – numa das suas várias incursões pelo ataque, a revelar, aos 34 anos, uma frescura física notável – teria saído em ombros do Bernabéu. Renascido das cinzas, a forma como se apresenta diz tudo sobre um jogador de classe que teve, apenas, o mau momento que lhe ia acabando com a carreira. Ao contrário de Ricardo, premiado pela “Marca” com 7,5 pontos, Simão, avaliado pelo mesmo diário com nota 2 (!), arrasta a sua veterania, sem glória, pelos campos de futebol. A atuação que rubricou frente ao Barcelona foi, simplesmente, uma desgraça.

3. Messi e Cristiano

A deceção no rosto de Cristiano, quando se anunciou Messi como vencedor da “Bola de Ouro”, foi um sinal de fraqueza dispensável. Mas o discurso de vitória do argentino, ao elogiar Iniesta e ignorar o craque português, demonstra também pouca grandeza. São génios com a bola nos pés e por aí se ficam. Como admirador de ambos, lamento que não subam ao patamar de cima.

Minuto 0, publicado na edição impressa de Record de 9 janeiro 2013