Tranquilos… que ninguém aqui vai preso

Quando o perguntador da Sport TV quis saber que “notas maiores” (!) Bruno Lage tinha tirado da partida de Coimbra, o treinador do Benfica surpreendeu-nos: “Antes de falar do jogo, falar do minuto 30. Isto tem que acabar, acho que foi um adepto para o hospital mas ninguém foi preso. A gente tem de começar a prender esta malta, sejam eles pretos, vermelhos, azuis, verdes… Quem tem este comportamento num estádio tem de começar a ser preso”.

Esta nota pedagógica do técnico, à revelia do repórter atarantado, tem, pelo menos, dois aspetos positivos. O primeiro é o de alguém de dentro do “circo do futebol” afrontar os desacatos em vez de anuir ao seu branqueamento, como optou por fazer a realização da Sport TV, seguindo o critério – tão discutível como o seu contrário – de não divulgar a ação dos arruaceiros, procurando que outros energúmenos não se sintam incentivados a seguir-lhes o exemplo.

O problema é que os próceres da violência que rodeia o fenómeno futebolístico em Portugal há muito dispensam incentivos: atuam porque sabem que gozam de impunidade. Vai-se para o hospital, para a cadeia é que não, lá está. A lei é fraca e a autoridade contemplativa. Ser banana é hoje o mais aconselhável para os agentes da autoridade que não querem chatices com as tutelas, nem servir de sacos de boxe para os “influenciadores” das redes sociais. Só o Ministério Público resiste ainda ao apelo do bananal – valha-nos isso.

O segundo aspeto positivo do grito de revolta de Bruno Lage é o golpe certeiro na hipocrisia. De facto, por que se desenvolveram entre nós estes ventos de violência, que já mataram e que contribuem para afastar as famílias do jogo e esvaziar os estádios – e que se propõem continuar nesse rumo criminoso e suicida? Respondo. Porque muitos fingem combatê-lo com asas de anjinhos quando são os verdadeiros responsáveis pelo fomento da intriga e da desavença, pela instigação ao ódio e pela escolha da baderna. Bastaria consultar uma coleção deste jornal e percorrer páginas e mais páginas, ao longo de anos, de décadas, para confirmar como alguns dirigentes e treinadores de topo – em particular porque há outros – se mostram chocados com supostos insultos de adversários, chamando ao combate os demónios que criticaram. Não são vítimas, são carrascos.

Talvez o discurso frontal e corajoso de Laje haja ferido de morte essa postura medieval, inimiga do negócio e de quem dele vive, e que destrói o nosso amor pelo futebol. Embora tenha sido outro treinador, Carlos Carvalhal, a apontar um caminho, baseando-se na sua experiência em Inglaterra. Dizia ele, na lúcida entrevista de sábado ao Record: “Ninguém magoa o futebol, seja com uma afirmação, um comportamento no banco ou nas redes sociais, sem ser exemplarmente punido. E não é seis meses depois ou na época seguinte. Eu tive um caso, em que tive de pagar 6 mil e tal libras, decidido em 12 dias”.

Está, pois, nas mãos dos clubes – no invisível secretário de Estado, infelizmente não – propor e aplicar regras duras que combatam a violência e punam os seus responsáveis no âmbito desportivo, impondo a seguir ao Estado o cumprimento da sua parte. Com simulações e falinhas mansas é que não vamos lá, até porque os anormais arranjam sempre maneira de levar a sua avante. O derradeiro exemplo é o fecho à vez das praias da Costa da Caparica, para lhes repor a areia… no mês de agosto! O futebol está insano, e o país, desgraçadamente, não está melhor.

Outra vez segunda-feira, Record, 15jul19

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