Textos da Sábado: crónica em pedaços – 3

1. Percebo pouco de arte e nunca me interessei por ter quadros em casa, uma vez que todos os exemplos que conheci – de Jorge de Brito a Artur Jorge – acabaram em leilões ou com a família a passear pelo Mundo à conta do sonhador que tarde de mais compreendeu que se ia embora e deixava cá tudo. E dei há pouco tempo uma volta pelo Alentejo e só encontrei igrejas completamente despojadas – tudo o que tinha valor foi roubado. Por isso, ficamos assim: gosto de ver, desde que nada me pertença. Ralações já tenho de sobra.

2. A querela política segue animada. O PSD tenta não dar a entender qualquer espécie de apetite pelo poder porque sabe que isso lhe faria perder muitos votos – e Passos Coelho passa a vida a apagar os fogos dos seus impacientes incendiários. Enquanto isso, o PS, reduzido a Sócrates e à sua inacreditável resistência, aposta no controlo da crise financeira como bandeira para as eleições do início de 2012, derrotado que seja, no final deste ano, o Orçamento de Estado. Nos últimos dias, no delirómetro analítico, pôs-se até a hipótese de o PCP poder vir a votar favoravelmente uma moção de censura dos sociais-democratas, o que faria o primeiro-ministro abrir em S. Bento, com o seu Richelieu de estimação, uma garrafa de Moët & Chandon. Que divertido!

3. Menos divertida está a situação no norte de África, com o que poderiam ser – mas desgraçadamente não são – ventos de democracia espontânea. Às quedas dos regimes autoritários suceder-se-ão sangrentas guerras civis ou, no mínimo, o desregulamento da vida em comunidade. Milhares de refugiados, com os marginais à cabeça, dirigir-se-ão às costas europeias, sob os aplausos da esquerda festiva. Não haver para onde fugir é o que de facto me aflige.

4. Compreende-se bem que as instituições bancárias adoptem cuidados especiais e se rodeiem de medidas que permitam preservar a segurança do negócio. Mas o que me pediram esta semana para activarem um cartão multibanco – de uma conta que abri há menos de dois anos – através do telefone indicado para o efeito, parece revelar uma perturbação deveras estranha. Começou pelos números: do cidadão, da identificação fiscal, do novo cartão, do código supostamente confidencial. Continuou com a data de nascimento, a morada e o telefone. A seguir o estado civil e uma segunda morada que pudesse ter utilizado (?). Depois, o absurdo total: o saldo da conta à ordem… nesse preciso momento! Finalmente, a decisão da assistente do call-center: “Como os seus dados não são coincidentes com os do banco, não podemos activar o cartão”. Pronto, desci a escada, fui ao balcão e, num minuto, resolvi o problema. A fase da estranheza passou, a coisa entranha-se.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 24 fevereiro 2011

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