Textos da Sábado: Crónica em pedaços – 2

1. Não devia escrever que ouço falar de Manuel Alves há longos anos. Qualquer dia, tudo se passou há já tanto tempo que se pode pensar que eu sou para aqui algum velho. A verdade é que Manuel Alves, cujo talento como estilista sempre admirei, é rapaz da minha incorporação. E tem, igualmente, em comum comigo, a determinação e a capacidade de resistência dos anciãos da tribo. Muitos chegaram e partiram, e nós, feitos à estrada, ainda caminhando. Mas no grande designer do Bairro Alto o que me espanta é o mesmo que não entendo em relação a outros criadores portugueses: como sobrevivem num espaço comercial de vistas tão curtas e num mercado reduzido como o nosso? Sim, porque o talento de nada serve na caixa do supermercado.

2. Lisboa está um caos. E não só por causa do desleixo, que já se vêem mais estaleiros do que abandono, um sinal encorajador. O que tem piorado imenso é o trânsito, nomeadamente o estacionamento. Aumentaram os carros parados – e com o condutor ausente – em segunda fila, nas curvas, nas passagens de peões, nas paragens de autocarros, em qualquer espaço antes proibido. A polícia responde assim ao desprezo a que o Executivo tem votado os agentes, a sua retribuição e as carreiras. Eu sei que um profissional não deve brincar com a profissão mas compreendo que a paciência tenha limites.

3. Uma publicação cor-de-rosa descobriu esta semana um familiar da mulher de José Mourinho, a viver na pobreza. A revista fez um simples trabalho, na linha a que historicamente se dedicam os títulos congéneres, pois a comparação, mesmo que absurda, entre riqueza e miséria, sendo chocante, vende. Mas numa época em que a inveja social é promovida por políticos e jornalistas, há que saber a responsabilidade que podemos assumir pela sorte das centenas de primas e primos desconhecidos que vivem por aí. Nenhuma, claro.

4. O porão da nau socialista revolve-se, a rataria, presa de movimentos nos últimos anos, procura novas posições e tenta descobrir como poderá mais facilmente morder as botas do comandante. O problema é que tem ainda medo, não vá o homem lograr convencer-nos, até 2013, que afinal foi ele quem salvou o País, o que a remeteria ao justo nível dos invertebrados. Ao menos, Ana Benavente demarcou-se da confraria e veio há dias acusar Sócrates de “autoritarismo”, enfim, uma confirmação do sentimento colectivo. Agora falta saber que tipo de autoritário é o primeiro-ministro, ou seja, se é só do género autista e iluminado que tudo pode, quer e manda, ou se passou também a meter na ordem uma certa canalha que lhe vinha comer à mão e lhe abocanhou o braço. Se for a segunda hipótese, no que não creio, abençoado.

Observador, publicado na edição impressa da Sábado de 10 fevereiro 2011

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