Teresa Pais para sempre: os primeiros cinco anos de luta (em atualização)

POSTS DO BLOG PUNTOCEROSECONDLIFE – 2008-2013

A AJUDA DA JO
(o primeiro post, publicado a 17 de setembro de 2008)

Ainda não foi desta… Todos os dias penso que vou começar a quimioterapia, mas há sempre mais um passo a dar. Agora, falta uma ressonância magnética que, para efeitos comparativos futuros, tem de ser feita antes do início da quimio. E obedece a outra condicionante: ser realizada ao sétimo dia do período menstrual. Assim sendo, vai acontecer na próxima segunda-feira.

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Com a filha Joana, um ano antes de saber que tinha cancro, em 2007

Finalmente, hoje a médica disse que a mão inchada tem a ver com a neoplasia mamária (é mais bonito do que cancro da mama, não é?). Estava a ver que ninguém ligava à “mão de porco”, mas desta vez ouvi uma explicação. Infelizmente, já não sei reproduzi-la. Qualquer coisa como gânglios inchados debaixo do braço (?).

O Júnior e eu decidimos hoje pedir uma consulta de acompanhamento psicológico. A médica anuiu, quando comprovada a nossa falta de sintonia nesta matéria. Eu quero organizar tudo para o caso de morrer, ele recusa-se a falar sobre isso. A médica deu-lhe razão, tenho de confessar, e fez o pedido da consulta. De qualquer forma, sobre a Joana, parece que a melhor solução é dizer-lhe o mais possível, dentro dos limites da naturalidade e sem a alarmar: a mãe tem uma doença nas costas, está a tratar, mas os remédios são fortes e, se calhar, vai-lhe cair o cabelo. O conselho da médica é que ela vá comigo cortar o cabelo. Acho que ela vai ser uma grande ajudante e comportar-se à altura da situação.

Bom, assim se passou mais um dia, rumo ao fim deste pesadelo. Beijinhos.

T.

SERÁ QUE DESTA VEZ EMAGREÇO?
(publicado a 17 de setembro de 2008)

Olá a todos. Como já sabem, a minha vida deu uma voltinha. Eu até queria ser magra, mas será que tinha de ser assim? E será que desta vez resulta?

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A receber o Prémio M&P da TV Mais, como Melhor Revista de Televisão

Resolvi criar este espaço para que nos mantenhamos em contacto sem precisarmos de falar muito ao telemóvel, o que, como sabem, adoro fazer, mas agora nem sempre posso. Até porque vocês, para sorte minha, são mais do que eu pensava.

A minha intenção é contar-vos aqui o que se vai passando e receber as vossas mensagens de misericórdia. Estou a brincar, claro. A ideia é uma boa ideia, a artista é uma boa artista e isto não é um espaço para bebés chorões.

Apareçam sempre! Beijos, e obrigada por serem meus amigos.

T.

A MINHA VERDADE
(publicado a 28 de novembro de 2011)

As notícias da morte da Adelaide e da minha recidiva chegaram juntas, com a distância de poucos minutos. A nova medicação que me fez sonhar com um futuro melhor/maior começou no dia em que me despedi, pela última vez, da Fátima. Agora, sonho com as duas. Ontem, andaram à minha roda, chamaram por mim e disseram-me que estavam lá para me receber, que não tivesse medo… Vou gostar de revê-las e de poder reparar muito do que ficou por dizer entre nós. Não tenho medo do outro lado, aquele em que elas estão e, a fazer fé no meu sonho, parecem bem…

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Com Fátima Raposo, vítima mortal de um acidente de viação, em 2011. Foto em Nova Iorque, em 1994

Só tenho medo deste mundo que deixo e de como partirei. Do que terei de sofrer e fazer sofrer até lá, da dor e angústia que deixarei numa criança e quais as consequências que isso virá a ter na sua vida… As mães têm filhos para amá-los e cuidar deles, não para deixá-los quando ainda tudo está a começar nas suas vidas… Dói que se farta, dói muito mais do que os ossos e o resto que ainda venha a querer magoar-me. Nunca nada poderá doer mais do que isto, seja lá o que possa vir a ser. (Os mais crescidos terão de aguentar bravamente…)

O Júnior acha que o que eu sinto é um exagero, mas na minha verdade, não é. Há dois meses tirei uma mama (não sei porquê mas as pessoas parecem achar que isso não custa nada) e há um mês e meio que ando doente. Primeiro, com os efeitos secundários dos comprimidos, depois com uma constipação brutal que ainda não consegui curar totalmente (o ouvido direito “foi-se”), uma estomatite aftosa de alto gabarito que começa agora a dissipar-se e que me proporcionou vários dias de incapacidade de engolir e comer sem dor e, ainda, um desarranjo intestinal com vários princípios e fins (foi ponto alto nos primeiros efeitos secundários do medicamento), até esta última vez, que ainda não terminou e que, podemos dizê-lo, atirou comigo ao chão, obrigando-me a dias e horas de náuseas, dores, sanita, noites sem dormir…

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Com Adelaide Nascimento, colega de redação, vitimada por um cancro no pulmão, em 2011

Exagero, diz a minha verdade, que não é parva, é uma pessoa ser obrigada a passar por tudo isto pelas razões porque eu passo, ou seja, para sobreviver. E a minha cabeça entra em alerta vermelho e coloca amiúde a questão: será isto o princípio do fim?

À minha verdade, parece-lhe que sim, que está mais ou menos na hora. Diz-me ela que a maior parte das pessoas que encontram um cancro no estado de progressão em que eu dei com o meu, não andam por cá três anos depois, felizes e contentes. Lembra-me ainda que, amanhã, na consulta, as análises, que já estão feitas, podem revelar uma de duas coisas: ou que o comprimido não está a fazer efeito; ou que até está mas o meu organismo não o tolera e qualquer infecção passa a ser um risco de vida. Ou as duas, sei lá.

A minha verdade tem-me infernizado a vida com pareceres e dúvidas. E tem-me deixado triste e amargurada. A minha verdade não acredita em boas notícias amanhã. Era bem feito que se enganasse, para o Júnior lhe dizer “eu não te disse?” Beijos,

T.

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