Atração pelo abismo

A agitada semana televisiva criou dois grandes grupos de espectadores de ocasião.

De um lado, os eufóricos, empolgados pelo bodo do Orçamento de Estado, com a faina partidária a prometer a terra onde corre o leite e o mel através de medidas como o fim das taxas moderadoras nos cuidados primários, a redução das propinas, a subida do valor de isenção do IVA para os trabalhadores independentes, a anulação do IMI para alguns idosos, o aumento de reformas muito acima da inflação ou a descida do IVA da eletricidade – esta abortada por um passe de ilusionismo que levou os proponentes a defender a baixa do imposto e a inviabilizar a sua aplicação!

Do lado oposto, os depressivos, entre os quais me conto, preocupados com a próxima crise financeira, já que tantos novos encargos, a juntar aos das progressões de carreiras e a inúmeras outras benesses com que o Governo sustenta um clientelismo crescente, acabarão por deixar os cofres públicos em situação difícil. A subida da taxa de desemprego é um péssimo sinal e as prováveis consequências da evolução do coronavírus, nos negócios na China, e do Brexit, na economia europeia, aconselham prudência. Mas a atração pelo abismo está na natureza dos portugueses.

Antena paranoica, Correio da Manhã, 8fev20

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