Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Tão ricos que nós somos

Declaração de interesses: sou um dos 12 mil privilegiados cujos rendimentos brutos ultrapassam os 80 mil euros anuais e que vão, em Janeiro, continuar a pagar 3,5% de sobretaxa de IRS em vez de 1,75%, como prometeu António Costa na campanha – afinal, uma promessa incumprida de quem tanta moral pregou. Mas nada me aborreço com isso e, mesmo depois de o governo anterior me ter desviado mais de 30 mil euros com a CES, continuo a acreditar que devem ser os que vivem melhor a dar um contributo maior.

O que me chateia é o labéu que me colocam, essa cretinice dos mais ricos, como se aqueles a quem o Estado retém bem mais de metade do que deviam receber não fossem apenas menos pobres do que a maioria – em vez de ricos, que rico é coisa diferente.

Escrevo esta crónica antes de ser conhecida a decisão do Parlamento sobre a redução a 50% do que resta da CES, a que Costa prometeu também pôr termo, sem entrar em detalhes. Mas com este exemplo da sobretaxa, temo o pior. Parece que Portugal se tornou – e em boa parte assim foi – num país de proletários, com uma odiosa burguesia exploradora, a desses 12 mil que tendo descontado balúrdios – e durante 50 anos, no meu caso – ganham (?) mais de 80 mil euros brutos.

Com Estaline, é certo, já estaríamos todos mortos.

Observador, Sábado, 23DEZ15

Nota da QdoC – Ao contrário do que também prometeu, acabar com a CES de acordo com a deliberação do Tribunal Constitucional, António Costa seguiu a decisão, antes tomada por Passos Coelho, de manter a CES, reduzida 50%, por mais um ano. Mais um ano? Hum… Quem viver, verá.