Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Tal&Qual, memórias de um jornalismo

No final do último verão, a editora Âncora lançou o livro “Tal&Qual, memórias de um jornalismo”, da autoria de Gonçalo Pereira da Rosa e de José Paulo Fafe. O pretexto foi a passagem de 40 anos sobre a fundação do semanário, que deixou de se publicar em 2007.

A obra não trata, em boa verdade, dos 27 anos de publicação do “T&Q”, centrando-se antes na primeira metade da sua vida – aquela em que o jornal contou com a colaboração de jornalistas extraordinários e viveu o seu período de grande fulgor. Mas como fui seu diretor entre março de 2001 e janeiro de 2002, já numa altura em que se lutava mais pela sobrevivência do título e – há que reconhecê-lo – se respeitavam menos os princípios fundadores, os autores convidaram-me a escrever um pequeno texto, o que fiz com particular gosto.

Para quem não comprou o livro, e fez mal, aqui fica o teor da minha participação.

DEZ MESES E UMA VIDA

Num dia de 1996, tinha eu acabado de ver encerrar uma editora falida, tocou o telefone. Era o José Rocha Vieira, diretor do “Tal&Qual”, com quem ao longo de anos mantivera uma relação cordial, a convidar-me para colaborar no jornal – um gesto que não esqueço. Comecei por escrever uma crónica social e criei a Clarinha de Sousa Botelho, cuja “atividade” prosseguiria mais tarde, no diário “24horas”. Assinei, igualmente, uma crónica sobre futebol. Depois, deu-se uma vaga e passei a integrar a redação, ao tempo chefiada pelo João Ferreira, com quem o Rocha Vieira me pôs a “competir”, como se, após uma década de inferno profissional, eu tivesse outro interesse que não fosse trabalhar com tranquilidade.

Depressa pude confirmar o acerto dessa postura reservada. Na véspera de fecho de uma edição, soube que Marco Paulo havia sido operado, devido a um cancro, e pedi ao Carlos Castro que fosse a casa do cantor para se fazer uma peça para o “T&Q”. Reunidos os dados possíveis – o artista não queria que se soubesse que estava doente – eu e o João fomos ter com o diretor para se tratar da manchete. Conheci aí o feitio difícil dele: que não queria aquilo para nada, que não contávamos pormenores relevantes, que não tínhamos a foto do homem doente, que para ele não havia história, enfim, uma tensão terrível e para mim absurda. Claro que, pesados os prós e os contras, a realidade impôs-se e lá se fez a primeira página que no dia seguinte chocaria o país.

Iniciei aí uma relação de altos e baixos com o Rocha Vieira, com idas para o “24horas” e regressos à base, até finais de 1998, quando o José Paulo Fafe, então chefe de redação, resolveu recorrer à minha experiência, retirando-me da prateleira e defendendo-me, precisamente numa fase em que outros criavam as condições para o meu despedimento. Esse ato de justiça e generosidade permitiu que se rasgassem horizontes diferentes, e melhores, para as últimas duas décadas da minha vida profissional. E quando, no início de 2001, o “T&Q”, entretanto adquirido pela Lusomundo, do coronel Luís Silva, registou vendas próximas ou mesmo abaixo dos 30 mil exemplares, com mais de 50% de sobras – e a redação parecia uma manta de retalhos, sem rumo e sem liderança – eu ainda estava lá. Contra todas as expectativas, mas estava.

Em março de 2001, por decisão do administrador Alberto do Rosário, fui nomeado diretor do “T&Q”. A ponte de Entre-os-Rios acabara de cair, a imprensa diária tinha “secado” as notícias e havia uma manchete em espera. Com a ajuda da jornalista Sónia Bento, no jornal apenas há dois anos, optámos por uma abordagem que repetiríamos no “24horas”: a de explicar aos leitores, com um perfil, quem era o protagonista de um caso relevante. “Quem é o homem que desafiou Guterres” – o presidente da Câmara de Castelo de Paiva, Paulo Teixeira – foi o título com que abrimos esse caminho.

Seguiram-se dez meses de esforço, com cerca de 60 horas por semana passadas na redação, tentando compensar, com imaginação, a influência que o jornal perdera – por culpa própria e do Mundo, que em 20 anos mudara. O primeiro grande salto, com vendas acima dos 50 mil exemplares, deu-se em maio, com “Putas à moda da casa”, uma reportagem em que três repórteres, escoltadas no terreno pelo jornalista António Nascimento, se embrenharam, com coragem, no negócio da prostituição lisboeta. Depois, em agosto, a viagem de Frederico Duarte de Carvalho – que fez um trabalho extraordinário – à República Dominicana permitiu desmascarar a farsa que se desenhava de um pomposo “casamento” de Bárbara Guimarães. E daí resultou uma manchete que nos fez vender mais de 60 mil exemplares: “Ela está casada mas é com este!”. Foi o fecho de um triângulo dourado, uma vez que em julho se alcançara um êxito de circulação ainda superior, a rondar os 65 mil exemplares vendidos, graças a outra magnífica reportagem, essa assinada pela jornalista Antonieta Preto: “Álcool, drogas, amantes e bruxas mataram Branca Flor”.

Com uma série de boas edições, como aquela em que – logo a seguir aos atentados do “11 de setembro” – os repórteres Fernando Brandão e João Bénard Garcia, supostos técnicos de ar condicionado, chegaram à porta do gabinete do ministro Jaime Gama, no Palácio das Necessidades, sem serem barrados, não só travámos a queda do “Tal&Qual”, como alcançámos o final do ano com uma média de 37 720 exemplares vendidos, mais 5% que em 2000. Já com o Gonçalo Pereira na direção, e comigo como diretor editorial, subimos ainda para 37 897 exemplares, em 2002. E lá me foquei no “24horas” com a missão cumprida.