Sporting: projeto incompleto, equipa curta

Trabalhei muitos anos, demasiados, em projetos com investimento insuficiente para poderem dar certo. Um dia, um amigo perguntou-me: “De que serve construíres um restaurante luxuoso e contratares um ótimo chef, se depois te faltar o dinheiro para o parque de estacionamento que te permita ter clientes?” Abri os olhos com isso e corrigi o tiro daí em diante, mas a chegada da crise deu-me ainda um derradeiro tirocínio. A mim e a 90 por cento do país: fazer mais com menos.

A lição do restaurante tem um exemplo claro no futebol, o Manchester City, que após ter perdido com o Barcelona em casa, a meio da semana, para a Champions, enterrou de vez – assim o Chelsea venha a ganhar o jogo em atraso com o último classificado – as suas aspirações na Premier, ao perder ontem com o Liverpool. Os citizens, com um plantel de chefs, negligenciaram o estacionamento ao manterem Pellegrini, campeão e pé frio.

No Sporting, tudo se passou ao contrário. Como apanhou a crise financeira que caiu em cima de outras crises, encontrou um presidente – goste-se ou não do homem, ele é um líder – que soube a seguir escolher um treinador, ou seja, começou, e bem, pelo parque de estacionamento, mas depois o dinheiro já não lhe chegou para os cozinheiros e para o resto. Arranjou o que podia, uma malta simpática e diligente para o atendimento, um chef nostálgico, umas mesas semiconstruídas, enfim, o que pôde ser.

Agora, no Dragão, mesmo tendo em conta o enorme esforço do jogo com o Wolfsburgo, vimos como a equipa do Sporting é curta, também na quantidade das opções, para as altas cavalarias. É possível fazer mais com menos, não se pode é abusar do conceito. Tudo o que Marco Silva e, sejamos justos, a bravura dos jogadores conseguiram desde julho é, simplesmente, um milagre.

Canto direto, Record, 2MAR15

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