Sofro pela Catalunha

Gosto de Espanha e gosto da Espanha tal como está. Mas esta questão da Catalunha aflige-me. Aos 18 anos, o meu batismo de voo levou-me a Barcelona, e a primeira cidade estrangeira onde pernoitei foi Gerona. Mais de meio século volvido, a capital catalã é uma das minhas cidades preferidas, e muito por causa do elevado nível cívico e cultural da sua gente que, na verdade, tem pouco de ibérica.

Há menos de dois meses, fui a Camp Nou ver o Barça-Real Madrid para a Supertaça e pensei estar noutra dimensão: fãs dos dois clubes ocuparam restaurantes e misturaram-se ao longo do dia pelas imediações do estádio sem o mínimo confronto, apesar de exibirem os respetivos símbolos e da cerveja escorrer com abundância. Um bom exemplo de convivência que os adeptos portugueses são, infelizmente, incapazes de seguir.

E é o patamar civilizacional dos catalães, expresso, aliás, na forma pacífica como até os mais radicais enfrentaram a brutalidade das cargas policiais, que me angustia. O que virá a seguir não serão dias melhores e a vontade de independência ter-se-á fortalecido nestes tempos de cólera. Compreendo a posição do Governo de Madrid, que tem, além de defender a unidade do país, de proteger os direitos dos não-independentistas, mas temo pelo sofrimento de tanta gente boa que merece tudo menos sofrer.

Observador, Sábado, 4OUT17

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