Sira, a heroína que se perdeu

No Hospital Amadora-Sintra não passa uma semana sem que um ou dois recém-nascidos não sejam entregues aos pais por se ter instalado, no espírito das assistentes sociais, a dúvida de que existam, nas famílias, condições que garantam o bem estar dos bebés. São cerca de sete dezenas por ano os casos em que se encontram motivos para intervenção e só podemos louvar o Estado pela sua capacidade de agir.

Infelizmente, não é assim em todas as situações e na semana passada, na área da mesma unidade hospitalar, mais propriamente no Bairro do Zambujal, na Amadora, uma adolescente de 13 anos perdeu a vida, de madrugada, depois de salvar das chamas cinco irmãos mais novos, deixados levianamente à sua guarda pelos pais, que terão ido comprar tabaco.

Pelo que veio publicado, aquela família estaria referenciada – um termo que dá para tudo e que de nada serve – mas a intervenção da Acção Social poderia ter sido dificultada por falta de autorização paternal.

Se assim foi, a legislação que permite o trabalho das técnicas nos hospitais mostra-se branda no seio familiar, onde o poder dos progenitores se sobrepõe, pelo que se viu, ao interesse das crianças. E por essa ineficácia partiu uma heroína que salvou os irmãos e que pereceu ao voltar atrás porque achava que ainda lhe faltava um… Que bom era ter-te connosco, Sira, pequena-grande mulher – como te deixámos morrer?

Observador, Sábado, 23OUT14

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