Silas faz omeletas sem ovos

A noite parecia ser dos desqualificados. Começou no Dragão, com Rúben Amorim, treinador sem os níveis criados pela corporação, a ganhar pela calada depois de se ter desfeito em elogios ao FC Porto, cujo “exemplo” garantiu seguir. Acreditaram nele os portistas – afinal, os de Braga não os venciam em casa há 15 anos – e tramaram-se. Também, é verdade, porque os de Sérgio Conceição falharam dois penáltis em poucos minutos, uma gentileza que faz parte da estrelinha que já percebemos que acompanha Amorim. Estivesse lá o Sá Pinto e pelo menos a bola que bateu na trave e foi para fora… entrava.

Em Alvalade, Jorge Silas, outro desqualificado para a função – apesar de vir à linha lateral dar as suas sentenças aos jogadores – e que trocara igualmente salamaleques (com Bruno Lage) antes do dérbi, logrou, até ao último quarto de hora, enganar o superfavorito, que nunca jogou nem mais nem melhor que os leões. Silas teve a competência de construir uma equipa a partir de um plantel considerado, com o exagero da praxe, uma anedota. E vimos ontem um endiabrado Rafael Camacho, um esclarecido Wendel, um eficaz Doumbia e até um esforçado Ilori, a criarem, com Mathieu, Acuña, Max e Bruno Fernandes, um bloco que criou muitas dificuldades ao Benfica. Só que a bola no poste de Camacho – Ferro está em má forma ou é só aquilo? – foi premonitória: o Sporting não chegaria à vitória.

Afinal, a qualidade vem ao de cima como o azeite. Silas pode, mesmo com a falta de Coates e Vietto, preparar um onze competitivo na base dos que jogam sempre. O que já não é capaz é de ter no banco, ao mesmo nível, gente sem tempo – e se calhar sem poder dar mais – para ganhar a intensidade sem a qual a diferença de classe se torna abissal. E quando Lage lançou Rafa e a seguir ainda Taarabt e Seferovic, suplentes (?) de luxo, para o derradeiro sopro, já a barreira leonina dera o que tinha, sem que o seu desqualificado técnico tivesse argumentos para responder ao qualificado treinador adversário. Ao contrário de Otto Glória, Silas aprendeu a fazer omeletas sem ovos. O problema é que, às vezes, repara-se nisso.

Contracrónica, Record, 18jan20

Partilhar

Os comentários estão fechados.