Sérgio Conceição só disse o que queria

Alguém disse, há dias, na CMTV, que Sérgio Conceição “é uma joia de pessoa” e não tenho motivos para não acreditar, até por simpatizar com a maneira de ser frontal do treinador e com a paixão que põe no exercício da profissão. A convicção com que desempenha esse papel, meio técnico e meio adepto, deixa de parte a hipótese de ter criado uma personagem cuja pele despe mal a função termina e as luzes se apagam. Não, o seu comportamento é genuíno.

O que me custa a entender é que Sérgio manifeste um tão débil sentimento de autocrítica e persista em atitudes excessivas e discurso desbragado, como se o tempo nada lhe ensine e com os erros nada aprenda. Depois do empate na Madeira, desrespeitou um colega de profissão e enfrentou os jornalistas ainda sob o habitual descontrolo, enviando recados a críticos desconhecidos e a energúmenos das redes sociais, e recorrendo a palavras boçais, situação que tentou desconstruir antes do jogo de ontem, afirmando, em jeito de desculpa sem se desculpar, que “nas palavras ditas não saiu aquilo que eu queria que tivesse saído”.

Não é verdade. Saiu aquilo que não devia, sim, mas não aquilo que ele não queria, já que a sua frase polémica no Funchal foi clara: “Estou com vontade de dizer isto, estou-me a cagar para isso”. Ou seja, estava com vontade de dizer e disse. Porque queria e não porque não queria. Dias mais tarde, face à triste figura, disfarçou a coisa sem emendar a mão.

O campeonato ainda vai no primeiro terço e dificilmente Sérgio Conceição terá êxito no desafio que se lhe coloca – e ao FC Porto – se continuar a submeter-se a este desgaste tremendo. Tem um evidente problema de gestão da raiva, que não poderá ultrapassar, como qualquer outro “gap”, enquanto não o reconhecer. Até lá, como D. Quixote, combaterá moinhos de vento.

O futebol internacional teve um fim de semana com momentos alucinantes. Foi sólida a vitória da Roma de Paulo Fonseca, retumbante a quase goleada (o 4-1 falhou por pouco) do Levante ao Barcelona, arrancada a ferros a recuperação do City, merecida a derrota do arrogante PSG frente ao último – com um golo magistral de um tal de Cádiz… –, trágica a lesão de André Gomes, dececionantes o nulo do Real no Bernabéu e a pobre exibição, mais uma, da Juventus, no dérbi.

Mas o grande momento viveu-se em Frankfurt, com o Eintracht a golear o Bayern, em tarde de glória portuguesa. Gonçalo Paciência voltou a exibir-se a alto nível e, aos nove minutos, fez um drible à entrada da área que levou à expulsão de Boateng, ação que marcaria o jogo. Ele e Bas Dost abriram brechas na defesa bávara e Paciência fecharia o marcador com o quinto golo, após uma boa jogada e melhor assistência de… André Silva, que saltou do banco para a humilhação final do velho senhor do futebol europeu. Na quinta-feira, Fernando Santos – ai dele! – não pode “esquecer-se” de Paciência.

Outra vez segunda-feira, Record, 4nov19

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