Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Sem angústia para o jantar

Começo por pedir desculpa aos leitores por ter renunciado à escolha do jogo de ontem da Seleção para tema desta crónica. Escrevo quase sempre focado na atualidade e não me debruçar aqui sobre um confronto importante para o nosso apuramento para o Mundial é algo que não me agrada.

Acontece que redijo estas linhas a meio da tarde, antes do desafio da Luz, porque vou ver o Portugal-Suécia em casa de um amigo e teria de abdicar do jantar que se seguirá – e da conversa! – para me isolar, agarrar ao computador e analisar as incidências da partida, repetindo dessa forma o que muitos, nesta edição de Record, fazem melhor do que eu.

Perguntarão: mas então os leitores não mereciam esse esforço? Claro que a resposta é sim, na verdade os leitores deram-me tudo. Mas não é menos verdade que, não tendo já responsabilidades editoriais, os leitores também me proporcionaram outra coisa: a possibilidade de dispor do meu tempo. Afinal, deixei de me sentir obrigado a viver em cima da hora e do que está a dar, podendo finalmente dedicar-me ao prazer – lúdico e insubstituível – de escrever ao correr dessa pena que se chama hoje teclado.

Como se sabe, venho de longe, das épocas dos grandes clássicos das Amoreiras, do Lumiar ou das Salésias, de seis décadas a ver futebol, pelo que ter assistido ontem a um embate quase decisivo – espero que o tenha sido e para as nossas cores – com tranquilidade, desfrutando do talento dos artistas, dos erros do árbitro, dos caprichos da própria bola e das emoções à solta numa sala confortável transformada em bancada VIP, é um privilégio que julgo merecer.

Mesmo profissionalmente falando, foram 50 anos de obrigações, de chamadas permanentes – e por vezes cruéis – do sentido do dever a sobrepor-se ao usufruir da própria vida. Ter a oportunidade de não precisar de me preocupar com planos, com manchetes, com casos do jogo ou seja com o que for e impor-me o trabalho de elaborar meia dúzia de considerações seria um absurdo.

Vou, por isso, jantar descansado e sem angústia, com a bênção do leitor. Quer dizer, rezemos para que o Cristiano esteja em dia sim, Alberto.

Canto direto, Record, 16NOV13