Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Selfies: a vaidade sem limites

Por estes dias, no regresso de breve visita a um país do primeiro Mundo, esbarrei na Portela com uma lamentável receção aos turistas que nos procuram: um único funcionário do SEF verificava tranquilamente os passaportes, indiferente à impaciência das vítimas que bocejavam na fila. Instintivamente, peguei no telemóvel e registei o triste quadro. Apesar de lento no seu trabalho, o homem apercebeu-se do disparo da objetiva – a mais de 30 metros – pelo que parou com o que estava a fazer, abandonou o seu posto e veio exercer sobre mim a autoridade: ali, não se podiam captar imagens, mesmo que, como era o caso, o local fosse público e apenas se vissem pessoas de costas e uma cabina ao longe. Tive sorte: sem o burburinho dos desesperados, a criatura era capaz de ter arranjado uma lei para me confiscar o iPhone.

Esta perseguição ao cidadão-repórter, uma figura de que também não gosto mas à qual já não conseguiremos fugir, está evidentemente condenada ao fracasso. Se há tanta gente, amordaçada por todas as ditaduras do Planeta, que arrisca a pele para denunciar com as pequenas câmaras ocultas a brutalidade do terrorismo dos seus estados, como querem estes frustrados agentes da repressãozinha a que ainda têm direito vencer uma batalha contra o futuro? Quando as fotos forem tiradas com a facilidade e a discrição permitidas por relógios de pulso ou óculos escuros, por exemplo, como farão?

O grande êxito das redes sociais está ligado à capacidade que qualquer anónimo tem hoje de recolher e publicar imagens, de opinar sobre a minhoca da fruta, de insultar governantes ou treinadores de futebol, de desancar pessoas que inveja ou de que simplesmente não gosta. Só quem triunfa na profissão, quem tem a vida bem resolvida ou quem dispõe da possibilidade de encontrar o que julga ser a fama a dizer obscenidades ou a protagonizar cenas pornográficas na televisão – perante o irreprimível orgulho da família, “continua assim, és grande!” – resiste sem dificuldade ao apelo de ser finalmente reconhecido pelas primas. Os outros, muitos com o sentido da própria existência por descobrir, seguem pelo atalho da auto-afirmação com o ímpeto do touro que desemboca na arena pronto a partir tudo.

Nasce daí esta moda das fotos selfies. No meio de reflexos de beleza e bom gosto, de expressões de afetos, de manifestações de humor e de comunicação saudável entre amigos, deparamos com o terror praticado por gente sem espelhos em casa e apostada em atingir-nos com a sua insuportável vaidade. Nada com que não possamos coexistir. A vida está tão pesada que antes a exaltação dos egos do que a desistência. Vem aí outro ano, aguentemo-nos.

Observador, Sábado, 19DEZ13. Tema de Sociedade da semana: as selfies…