Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Sangue de barata é bom para a pesca

Revi agora uma entrevista de Jorge Jesus à CMTV, na Arábia Saudita, na qual explicava que a experiência no Al-Hilal o tinha tornado num homem diferente por ter aprendido, com a filosofia árabe, a encarar as derrotas de forma algo semelhante ao que acontecia com as vitórias. Veio-me logo à ideia o Sérgio Conceição e os seus ataques de cólera, e o bem que lhe faria passar um tempo nas arábias. Talvez um dia.

Trata-se de uma treta. Primeiro porque Jesus podia comportar-se como um cavalheiro em Riade: ninguém por lá lhe puxaria as orelhas. Mas não esperaremos muitas semanas para o vermos irritado e a mandar vir junto ao banco do Benfica. Depois porque tivesse Sérgio Conceição uma postura de “gentleman” e não teria tido, muito provavelmente, a capacidade de sacudir a pressão – que chegou a ser brutal – e levar o FC Porto à conquista do segundo campeonato em três épocas. O nobre conceito de “saber perder” faz lembrar aquele futebol muito bonito e elogiado por todos que permite aos adversários ganharem os jogos. Quem tem sangue de barata só pode ter êxito na pesca. E tem de ser à linha.

Não é esse o caso de Rúben Amorim, que faz declarações carregadas de bonomia no lançamento das partidas e perde o sentido de humor no final, quando o resultado não é o que esperava, como sucedeu na Luz: mal ouviu o apito final, dispensou o “fair play” dos cumprimentos e avançou de rosto fechado para o balneário. Temos homem. Tanto mais que passa da ira à moderação em minutos: ainda desgostoso mas já não agastado, apareceu aos jornalistas com um discurso positivo e o olhar no futuro que o futebol exige e a vida aconselha. As últimas jornadas não lhe correram bem e perdeu o terceiro lugar na liga por culpa própria: não pelo que fez ou não fez em Alvalade, antes pelos pontos “a mais” que somou ao serviço do Sp. Braga…

O estado de alma de Rúben Amorim não foi, infelizmente, seguido pelos sportinguistas nas redes sociais, onde logo na noite de sábado estalou a guerra civil, com acusações cruzadas e os insultos da ordem. Uma das críticas mais absurdas ao treinador leonino foi a de ter posto a jogar demasiados jovens. O que lhes digo é que tivesse ele insistido nuns coxos que lá tinha e o Sporting acabaria ultrapassado por Rio Ave e Famalicão. Noção da realidade, precisa-se!

Rio Ave e Famalicão que com menos recursos e espalhafato conseguiram um fantástico desempenho no campeonato, ambos merecendo a quinta posição e a qualificação europeia. Sorriu a sorte aos de Vila do Conde, com o inacreditável final de jogo na Madeira, mas nem por isso é menor o mérito de Carlos Carvalhal, para quem se abre de novo a porta do futebol inglês. Chapeau!

O último parágrafo vai hoje para o histórico Vitória de Setúbal, que logrou, com suor e lágrimas, permanecer na divisão principal. E aqui deixo um abraço ao Lito Vidigal, uma pessoa de caráter e um dos técnicos mais competentes do futebol português.

Outra vez segunda-feira, Record, 27jul20