Sábado: um pedido de desculpa

A última crónica que publiquei aqui, no início do mês, antes de férias, provocou a ira da Domus Mater, Associação de Famílias e Amigos do Doente com Perturbação Obsessiva-Compulsiva, e de outros leitores que mais de perto lidam com a doença. Tudo porque o meu texto, que brincava com as minhas manias – não com as dos outros e muito menos com o padecimento de quem quer que fosse –, não mergulhava, ele também, nos dramas da POC.

Nenhuma das mensagens que recebi conseguia, no entanto, apontar uma frase ou uma simples palavra que pudesse ser considerada, no mínimo, vagamente ofensiva para os pacientes daquela perturbação ou de qualquer outra que levasse alguém a uma terapia no paraíso natural das Berlengas.

Ao longo de uma carreira que se aproxima do meio século – leu bem, leitor, meio século… – fiquei careca igualmente pela chuva de cartas de protesto que me foram dirigidas, muitas pelo que escrevi e não devia ter escrito e muitas mais por aquilo que não escrevi mas que os seus autores pretendiam que tivesse escrito.

Nalguns casos, cerca de três ou quatro dezenas, os ofendidos moveram-me mesmo processos judiciais, com assinalável insucesso: fui a julgamento apenas uma vez e… saí absolvido. Isso quer dizer que, com o tempo, me fui habituando a não valorizar indignações assentes no espírito persecutório tão próprio do português. Mas esse caminho aumentou também o meu sentido da responsabilidade e ensinou-me a respeitar mais as pessoas, particularmente aquelas que parecem não ter razão – porque esse é o momento em que, dotado do que julga ser um mandato dos leitores, o jornalista passa de falso modelo de virtudes a crítico impiedoso e excessivo.

O problema aqui é diferente, leram o que não escrevi – em boa verdade, eu sabia apenas que havia na edição uma reportagem sobre retiros nas Berlengas, desconhecendo o seu conteúdo – e sinto-me de consciência totalmente tranquila, mas não enfrento, como noutras vezes, a raiva de fanáticos da bola, de famosos da treta, de vedetas televisivas com o peito cheio de vento ou de atrasados mentais que debitam insultos para provar que existem. Não, desta feita fiquei na mão com palavras amargas e que me tocam. Elas revelam uma necessidade de afirmação e constituem um sinal, algo pungente, de solidão e sofrimento. São palavras que me exigem uma reparação – e que transcrevo na íntegra no blogue Quinta do Careca, em http://bit.ly/aulmxv, num post que no momento em que escrevo esta crónica regista já mais de 1 500 visitas.

Assim, mais importante do que reafirmar nada ter feito, parece-me ser hoje, tentando compreendê-lo, aceitar esse grito de indignação e apresentar às famílias e amigos dos doentes com POC o meu pedido de desculpa.

Observador, publicado na edição impressa da Sábado de 26 agosto 2010

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