Sábado: crónica em pedaços – 9

1. Como tenho dificuldade em entender qualquer vício, não percebo a fúria pela jogatana. E também gosto de jogar, em especial às cartas, desde que não haja dinheiro em cima da mesa. Mas já vi um pouco de tudo na minha actividade profissional, desde o alto quadro de uma empresa impedido de chegar à administração porque o accionista descobriu a sua atracção fatal pelos casinos, ao jornalista afundado em dívidas e que arrastou mulher e filhos para um pesado quotidiano de expedientes e aldrabices. É doloroso que pessoas com qualidades humanas assinaláveis se deixem enredar nessa teia e não possuam depois a força de vontade suficiente para parar e seguir em frente.

2. Não sei se Isaltino de Morais é um político corrupto que foi apanhado, se um injustiçado pelo sistema judicial. O que sei é que a única simpatia que me suscita é a de quando entro no concelho de Oeiras e me deparo com uma autarquia modelar. Custa-me, pois, aceitar que um arguido que colaborou com a justiça ao longo de tantos anos, e que não fugiu quando podia ter fugido, seja detido de surpresa e com desproporção de meios, em vez de ser convocado para, no dia tal, às tantas horas, dar entrada no estabelecimento prisional a fim de cumprir a pena a que foi condenado – para mais, como se viu, sem haver uma decisão definitiva. Triste prazer esse, o da humilhação gratuita!

3. A minha filha mais nova recebeu há dias o seu computador Magalhães. Escapou por pouco ao fim de um privilégio que tinha a vantagem de despertar as crianças para o mundo novo e de as fazer mais felizes. Enfim, quem não tem dinheiro não tem vícios, é bem verdade, mas parece-me que a insensibilidade social do Governo vai muito para além do miserabilismo em que caímos. Sim, como entender o corte do prémio de 500 euros aos melhores alunos apenas três dias antes da sua entrega? É que os efeitos negativos são, pelo menos, dois. O primeiro: deixa-se de dar um importante sinal de que o esforço compensa, que a excelência deve ser o objectivo de qualquer estudante, que o trabalho é o grande segredo da vida. O segundo: um Estado que frustra deste modo as expectativas de um jovem, mostra que não é pessoa de bem e que se deve olhar para ele de lado, o que tem efeitos perversos na sua relação futura com os cidadãos – sendo que a de hoje é já de profunda e justificada desconfiança.

4. Se for promulgada, a nova lei sobre o enriquecimento ilícito virar-se-á contra nós. A intenção é obviamente boa, mas a produção da prova – dos crimes-base do enriquecimento, como a corrupção, o roubo ou o tráfico – estará dificultada. Teremos mais casinhas em nome de terceiros, mais carros e barcos em renting, mais contas bancárias abertas por primos. A vilanagem ajeita-se sempre.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 4 outubro 2011

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