Sábado: crónica em pedaços – 6

1. Alegria dupla. Depois da incontornável especulação jornalística, Passos Coelho e Paulo Portas escolheram o seu governo, um razoável governo – pelo menos à partida e dadas as circunstâncias. Fizeram-no com uma discreção a que não estávamos habituados e reservaram-me, ainda por cima, duas alegrias: não concretizaram a ameaça do carnaval permanente que seria ter o professor Catroga nas Finanças e não chegaram a acordo quanto à eleição de Fernando Nobre para presidente da AR. Sou admirador da obra do médico e do humanista, mas não consigo apreciar a sua acção como político, que me parece mais marcada pela vaidade do que pelo desejo de servir.

2. Sinal positivo. Foi de uma lista de 83 CEO que quatro mil gestores e analistas europeus escolheram Ricardo Salgado, do BES, e Fernando Ulrich, do BPI, para o top 10 dos responsáveis pelas melhores instituições bancárias do Velho Continente. Enfim, é uma distinção que nos servirá de pouco se a crise se agravar e Portugal tiver de sair do euro, com a economia de rastos e as poupanças reduzidas a metade. Mas anima, sim, talvez escapemos.

3. Lugar honroso. No estudo de reputação de marcas de média, divulgado pela Marktest e que traz a RFM à cabeça, o Record alcançou uma razoável 31.ª posição, entre as 48 do ranking. E digo razoável desde logo porque ficou – também aí – à frente dos seus dois concorrentes directos, e depois porque deixou de ser possível à imprensa especializada em desporto escapar ao labéu mil vezes repetido pelos que alimentam a vontade de a eliminar: a de que anuncia muitos jogadores que não são, mais tarde, contratados pelos clubes. Como se o mercado do futebol não fosse uma girândola de nomes que todos os anos balança entre a oferta e a procura, seguindo as regras tradicionais de qualquer negócio. E quando se escreve que fulano pode interessar ou que o clube tal perguntou quanto custava determinado passe, logo se atira para o ar que o jornal noticiou um futebolista que não veio. Enfim, temos de viver com isso.

4. Fora da cozinha. Tive uma altura na vida em que fui pai solteiro. Partia para a luta antes das 8 horas, para levar a criança à escola, e ao fim da tarde ia para casa relativamente cedo, tratava do jantar e deitava a miúda. E consegui sempre conciliar essa tarefa, grata e inesquecível, com a vida profissional, o que me faz sorrir quando ouço algumas mulheres armarem-se em vítimas  por terem de criar os filhos e trabalhar em simultâneo. Foi nesse tempo, aliás, que a necessidade me transformou em mestre de cozinha, situação apenas alterada quando me voltei a casar e fui literalmente intimado a não fazer mais comida. Só não fiquei com o ego em baixo porque há muitos anos o blindei.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 22 junho 2011

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