Sábado: crónica em pedaços – 5

1. A detenção do poderoso Dominique Strauss-Kahn, director do FMI, acusado de agressão sexual, mostra bem como funciona a justiça nos Estados Unidos, um país que é campeão de misérias e igualmente exemplo de grandeza. E nem sabemos o que mais admirar, se a eficácia da polícia, que o arrancou de dentro de um avião pronto a descolar para Paris e o conduziu algemado (!) a tribunal, se a coragem da juíza que não se intimidou com o nome do arguido, e dos seus advogados, e manteve a prisão, sem direito a caução. Por cá, há poucos dias, a Relação absolveu um médico violador. Coisas do direito, claro.

2. Como era previsível, tal a quantidade de tiros nos pés acumulados na S. Caetano, o PSD perde para o PS algumas sondagens, embora a alternância na previsão de vitória de um e de outro não indiquem mais que um empate técnico, o que traduzido em miúdos significa que tudo poderá acontecer em 5 de Junho, até aquilo que nos apontava o estudo publicado no Público do passado sábado: Sócrates a ganhar as eleições, e PSD e CDS com 47,3% dos votos e provável maioria parlamentar. Ou seja, existem fortes probabilidades de o País se manter ingovernável. Com o primeiro-ministro e Passos Coelho a não perderem uma oportunidade para cimentar o instransponível muro que os divide, resta a expectativa de saber que poção mágica utilizará o senhor presidente da República para desfazer o imbróglio.

3. Contas feitas por alto e ainda sem lhes somar as medidas que o novo Governo patrocinado pelos credores será obrigado a tomar, em 2011 os impostos lá de casa aumentarão para aí 10 mil euros. Não me queixo demasiado, sei que há muitíssimos portugueses que vão ter de cortar nas necessidades básicas para ajudar o Estado a pagar os seus desvarios e, pelos vistos, continuar a alimentar a parasitagem acoitada em gabinetes gordos e fundações inúteis, empresas públicas ruinosas e organismos municipais criados para dar empregos aos amigos. Mas quero reformar-me e não sei que faça, pois se por um lado me exigem que trabalhe mais tempo, por outro ameaçam-me com um tecto às pensões, o que quer dizer que pretendem continuar a roubar-me. Não alimentemos ilusões, em Portugal quem não é pobre para lá caminha. A inveja social fará com que o Estado, que já leva metade do que ganhamos, só em impostos directos, nos coma o resto, euro a euro, até à albanização final.

4. Há muitos, muitos anos, quando me cruzei no elevador com a vizinha de cima, cujos gritos nocturnos sugeriam algo de sublime, e reparei como era feia, aprendi a lição. Hoje, que moro numa casa bem isolada em termos acústicos, nem preciso de me lembrar que cavalheiro não tem ouvidos.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 19 maio 2011

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