Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Sábado: crónica em pedaços – 4

1. Tenho amigos com paciência suficiente para me lerem que não gostam destas crónicas quadripartidas. Haverá quem as aprecie, confio eu, mas com temas de Sociedade como o desta semana não é fácil à modéstia do escriba encontrar o fio condutor que permita ligar o texto aqui do lado a Portugal e aos nossos dias. Até porque a espionagem estará reduzida por cá ao SIS – espero que com competência superior à da generalidade dos serviços – e se recuarmos no tempo iremos fatalmente esbarrar na polícia política e nos famigerados bufos, o que de todo não me motiva. E a reportagem de Pedro Jorge Castro não mereceria o remate de outra historieta que lhes pudesse contar.

2. O ataque das forças aliadas da Líbia parece recolher até o aplauso dos mais radicais militantes pacifistas. Mas o problema está na fórmula adoptada, que é a de despejar bombas durante vários dias, ou semanas, sobre Trípoli – há que renovar os stocks que se amontoam nas fábricas – sem arriscar uma invasão terrestre e as mortes, muitíssimas, que daí resultariam. E depois? Depois Kadhafi e o seu milhão de homens armados percorrerão, se for preciso a pé, os quilómetros que os separam de Benghazi, onde arrasarão tudo. Entretanto, já o crude estará nos 200 dólares por barril e as economias ocidentais mergulhadas em nova crise profunda – sem terem sequer saído da anterior. Fazer a guerra com medo de morrer deixa-nos nas mãos do perigosíssimo depois se vê.

3. Sábado, o Sporting vai a votos. Prova da vitalidade do grande clube de Alvalade são os cinco candidatos à presidência, todos rodeados de muitos barões e de velhas glórias, sem que se percebam as diferenças com que se propõem gerir a debilidade dos recursos financeiros, a falta de convergência e de solidariedade internas, e um futebol profissional em pantanas. Seja quem for o vencedor, ele terá, a partir da madrugada de domingo, não só de ultrapassar as terríveis barreiras que naturalmente o aguardam, como a indiferença, e mesmo o desdém, que os perdedores lhe dedicarão, sem tréguas nem contemplações.

4. No dia em que escrevo estas linhas, Sócrates afadiga-se na recepção aos líderes da oposição, na continuação do diálogo de surdos e em mais um acto da encenação com que espera não perder as eleições que se avizinham. E em Abril, quando entrarmos na fase mais dura da procura de financiamento externo para o despesismo do Estado, lá se irá – e é apenas um exemplo – o subsídio de férias dos funcionários públicos, por culpa, claro, “dos que mergulharam o País na instabilidade política”. Já não conseguindo segurar os seus boys, escanzelados por uma fome de seis anos, o PSD cai, como um patinho, na armadilha colocada por gente determinada e, por isso, muito dura de roer. Pobre País.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 24 março 2011