Sábado: crónica em pedaços – 10

1. Percebo a malta da Cabala. Quando as religiões que existem não correspondem ao que esperamos delas, a solução é criar mais outra. Podia ser o meu caso, um cristão desiludido com as distracções divinas e com os autismos do Vaticano, vulnerável mesmo a perigosas derivas agnósticas, e que também não se revê em qualquer outro credo. E muito menos em seitas ou em estádios superiores dominados pela luz. Julgo que me equilibro mantendo apenas uma relação discreta e nada conflituosa com a santidade lá de cima.

2. Otelo Saraiva de Carvalho deu-me a honra de uma referência positiva no seu Alvorada em Abril, pelo que nunca será personalidade que me deixe indiferente. Tenho é de ser realista e de ficar pela primeira vez de acordo com o major Tomé, que classificou duramente o apelo do seu ex-camarada a um novo 25 de Abril. Há 37 anos, havia em Portugal uma ditadura e na África colonial uma guerra, dois motivos mais do que suficientes, se outros não houvesse, para justificar a revolução. Mas hoje que faria Otelo e os outros aventureiros que lograsse arregimentar? Derrubavam o Governo escolhido pelos eleitores e punham lá quem? Faziam o quê da Constituição democrática? Satisfaziam os compromissos do Estado com que dinheiro? E os portugueses trabalhariam onde e subsistiriam como? Ai, Otelo, só não perdes de novo a confiança dos teus homens porque já nada te resta. E não tinhas de acabar assim, pá.

3. Sou contra uma justiça (?) que protege criminosos que fugiram dos países onde cometeram os crimes. Mas estarei do lado de Duarte Lima se tudo o que existir contra ele, no caso Rosalina Ribeiro, for aquilo que a polícia brasileira divulgou. Teorias não faltam, o que faltam são factos – um vídeo ou uma foto, uma arma ou uma bala, um pingo de sangue ou uma impressão digital, ao menos um relatório de autópsia em que se saiba a hora da morte. Não é possível extraditar um português para um país onde os processos são instruídos desse modo, e investigadores e juízes prendem por suposições. Que prova esperariam fazer em tribunal? É tudo mau de mais para ser verdade.

4. Referi-me aqui na semana passada à ignorância dos concorrentes da Casa dos Segredos, mas as perguntas de cultura geral colocadas pela Sábado a alunos universitários provam que o fenómeno do desconhecimento não é exclusivo de jovens cujos horizontes são estreitos. E o mais chocante da reportagem é a descontracção com que os inquiridos exibem a ausência de sabedoria, e se identificam e deixam filmar. E os sorrisos e as gargalhadas? Razão tinha Erasmo quando dizia, há 500 anos: “O insano ri-se do insano”. Vêem? Vêem como eu não posso deixar de acreditar totalmente em Deus?

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 23 novembro 2011

Partilhar

Os comentários estão fechados.