Sá Pinto: a bronca anunciada

Sou admirador de personalidades que se recusam a ser cinzentas, o que equivale por dizer que gosto do estilo frontal de Sá Pinto. É verdade que escusava de ser tão frontal assim, pois existe uma fronteira que não se deve passar e que é aquela que separa a agressividade e o inconformismo da violência. Para lá dessa linha já não o acompanho.

É bom que se diga que Liedson também não andou bem. Os sócios assobiaram Rui Patrício não por não gostarem dele mas por ter falhado no lance do segundo golo do Mafra. Criticar à frente dos colegas os que estão na bancada a sofrer pelo clube não fica bem a um profissional e muito menos a um futebolista da categoria de Liedson. Devia ter-se contido.

Os adeptos do Sporting ficaram igualmente mal na fotografia, já que se há jogador – e haverá outros – que tem salvo os leões de males maiores, esse será o seu guardião.

Mas Rui Patrício é também réu por aquela saída destrambelhada, uma verdadeira chinesice, só admissível porque nem é habitual nele, nem há guarda-redes que se possa considerar imune a falhas desse género.

Ou seja, forjou-se uma cadeia de erros, e todos próprios do futebol, que aqueceu a cabeça dos protagonistas do torneio de boxe de Alvalade. Sá Pinto, que estava lá para chefiar, para se fazer respeitar, para ser o ponto final naquela sucessão de nervos à flor da pele, era o elo que não podia quebrar, o homem ali colocado para não falhar. E que foi na enxurrada e perdeu – tratava-se, aliás, de uma questão de tempo.

A caravana do destempero não termina, no entanto, na degola de Sá Pinto, já que foi o presidente Bettencourt quem cedeu ao populismo e à facilidade de contratar um quadro que todos sabíamos ferver em pouca água. Não passa, por isso, incólume em mais esta trapalhada.

Canto Direto, publicado na edição impressa do “Record” de 23 Janeiro 2010

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