Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Rúben Amorim construiu uma fortaleza

Dez golos em 20 jogos, eis o maior trunfo do Sporting – o FC Porto, por exemplo, já sofreu 21 em 19 partidas. A segurança de Adán, de que tanto desconfiámos, a procura da melhor forma de sempre, entre nós, de Coates, a confirmação do acerto da contratação de Feddal, de que o Bétis parecia querer livrar-se, a reabilitação de Luís Neto, que congelara em São Petersburgo, e a cereja no topo do bolo que é Gonçalo Inácio “respondem” pela capacidade de quem montou a teia. E deixo de fora Pedro Porro e Nuno Mendes – e Palhinha! – porque foi lá atrás, mesmo, que Rúben Amorim construiu a fortaleza que vai ter no Dragão uma dura prova de fogo. E bem andou o treinador leonino ao lembrar a “débacle” do Atlético de Madrid, antes de um duelo que, a ser perdido pelo Sporting, reduzirá a sete pontos a vantagem conquistada – caso o FC Porto ganhe hoje, claro. Com 13 jornadas por cumprir, outro campeonato começaria. Ter a noção da realidade é também um desafio.

Dito isto, não resisto a partilhar com os leitores, em particular com os sportinguistas, uma dúvida estúpida que me atormenta: se no tempo de Bruno de Carvalho o Sporting se desleixou com a academia de Alcochete – tenho até uma vaga ideia de ter lido que nem os colchões escapavam à deterioração geral – a que raio de formação é que a direção do dr. Varandas foi buscar miúdos como Nuno Mendes, Gonçalo Inácio, Tiago Tomás, Eduardo Quaresma ou Daniel Bragança que Rúben Amorim vai transformando em craques?

Só na segunda parte do Sporting-Portimonense o relvado dos leões começou a roçar o impraticável, sinal de boa saúde e bons cuidados. Como se explica, então, que o outrora magnífico tapete verde do Jamor, no sábado com menos uma meia dúzia de horas de chuva intensa em cima do que o de Alvalade, estivesse uma miséria quando começou a partida com o Nacional? E que elevados critérios terão presidido à inspeção da Liga que aprovou o retângulo do Estádio Nacional poucos dias depois de o ter reprovado? Que tratamento de recuperação milagroso terá sido feito na relva para que os “inspetores” mudassem de opinião? E o que leva um árbitro a dar início a uma partida naquelas condições deploráveis, sabendo que o estado do batatal irá pôr em risco a integridade física dos jogadores?

Uma palavra de solidariedade para Jorge Jesus. Se a vida não lhe corre bem por cá, no Brasil o Flamengo é quase campeão. Depois de Abel Ferreira ter conquistado a Libertadores…

No país vizinho os alarmes tocam por João Félix, que tarda em mostrar o valor pelo qual o Atlético achou por bem pagar 127 milhões de euros. E agora, com cinco pontos desperdiçados em poucos dias e com a liga “ganha” em dúvida, os holofotes giram em busca de culpados e Félix pôs-se a jeito. E melhor não está Gonçalo Guedes, em Valência, não utilizado no triunfo sobre o Celta e assinalado pelos adeptos por suposta falta de empenho nos treinos. Estamos perante uma gestão caótica da carreira de um dos maiores talentos do futebol português.

Felizmente que, em sentido inverso, nos chega a grande condição de Bernardo, Cancelo, Rúben, Bruno, Neto, Moutinho, Neves e Patrício, em Inglaterra, de Guerreiro e de André Silva, na Alemanha. Já Danilo, em Paris, vai jogando aos poucos, enquanto William, em Sevilha, deixou de ser primeira opção. E tarda o regresso de Diogo Jota… De qualquer maneira, Fernando Santos não vai ter, para bem dele e da Seleção, tarefa fácil na próxima convocatória.

Voltando a Espanha. Os adeptos do Real Madrid mostram-se inconformados nas redes sociais com a mais que provável saída de Sérgio Ramos e apelam a Florentino Pérez. Ou seja, os anos passam e não aprendem. O clube que permitiu que partissem sem glória figuras emblemáticas como Raúl, Alonso, Casillas, Pepe ou Cristiano, não moverá uma palha para dissuadir o capitão de terminar a carreira noutras paragens. Sem Ramos e Messi, La Liga perderá muito do seu sal.

Terminaram os mundiais de Biatlo com a esperada supremacia da Noruega e a meia deceção da França. Os nórdicos conquistaram 14 medalhas, sendo sete de ouro, viram confirmada, com quatro títulos, a grande revelação do ano, Sturla Laegreid, de 24 anos, e tiveram na líder mundial, Tiril Eckoff (na foto), a melhor atleta do campeonato, com seis medalhas, quatro das quais de ouro. E o domínio da Noruega só não foi maior porque os consagrados Johannes Boe e Marte Olsbu se apresentaram em Pokljuka completamente fora de forma.

O último parágrafo, curto, para Ronnie O’Sullivan, que perdeu a final do Open de Gales, de snooker, e não ficou nada chateado. Pois eu fiquei. Já me bastava Djokovic, o negacionista.

Outra vez segunda-feira, Record, 22fev21 (versão integral)