Ricardo Salgado: uma detenção punitiva

Uma detenção punitiva

Como cidadão, sentir-me-ia verdadeiramente protegido se o Ministério Público detivesse alguém muito poderoso, a fim de investigar sem entraves as tropelias que pudesse ter praticado. O certo é que, como Vale e Azevedo, que só burlou o Benfica e foi preso depois de ter deixado de ser seu presidente, também Ricardo Salgado só terá cometido malfeitorias – ainda por cima no caso com barbas conhecido por Monte Branco – após ter saído da presidência do BES.

Incompreensível é também a detenção do banqueiro, em sua casa, quase de madrugada – supostamente por receio que destruísse documentos – já que, sabendo antes da notificação, se havia prontificado a depor e até mais cedo, portanto com menos dias para ficar no Hotel Palácio a regar papéis com gasolina. Terá sido então por haver perigo de fuga? Mas quanto tempo já teve Ricardo Salgado para se pôr ao fresco se essa fosse a sua vontade? E para onde fugiria? E agora, que tem duas semanas para entregar 3 milhões de euros de caução, já não pode fugir? Ou fazem-lhe falta os 3 milhões quando o seu problema são 300 milhões ou 3 mil milhões ou ainda mais?

Não, a sensação com que fico – eu e o País – é que a sua detenção funciona como uma espécie de punição antecipada, ou seja, da vergonha já não te livras porque calculamos como vai terminar o filme.

Observador, Sábado, 31JUL14

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