Respeito a indignação até de quem leu o que não escrevi

Escrevo sempre à segunda-feira a minha crónica da “Sábado”, antes portanto de ter acesso ao texto cujo tema, e apenas o tema, procuro respeitar. Isso quer dizer que, sabendo o que sei hoje, não teria feito uma crónica de humor – pois era-o de facto – na sequência de uma reportagem que tratava de algo demasiado sério.

Mesmo assim, tenho a experiência de vida suficiente para saber que um jornalista não deve – e se tiver as minhas responsabilidades, não pode – produzir e assinar textos que não respeitem as pessoas e os seus dramas. E é o que procuro fazer. E foi o que fiz com a crónica que suscitou os protestos que reproduzo a seguir na íntegra.

Estou certo que qualquer leitor que não tenha a sensibilidade à flor da pele – como eu teria se tivesse de lidar de perto com um problema como a POC – entendeu que não só não tive a mínima intenção de ofender alguém, como em parte alguma do meu texto, que reproduzo no final deste post, existe uma simples palavra dirigida a um daqueles doentes ou que possa sequer ser entendida como menos consideração pelo problema que eles e as suas famílias enfrentam – era o que faltava.

Devo entender também as cartas em causa como “provas de vida”, ou seja manifestações que procuram contrariar o manto de silêncio e de esquecimento que se abate na nossa sociedade sobre tudo aquilo que não seja “bonito”, nem “agradável”. E até a “crítica de família e amigos”, como refere magoadamente o Sr. Carlos Claro.

Foi por tudo isso que o invocado “direito de resposta”, sem cabimento jurídico, não foi reconhecido, e bem, pela direção da “Sábado”. O que não o torna, para mim, em algo despropositado e que deva passar sem divulgação, esclarecimento e reparação.

Aprendi também, há muito tempo, que existe ofensa sempre que haja ofendido e ainda que não exista ofensor. O que me obriga, mesmo de consciência e mãos limpas, a apresentar à Associação Domus Mater e às famílias que representa, o meu pedido de desculpas – com admiração e solidariedade.

Divulguei este post na minha timeline do Twitter e do Facebook, e publicarei, na crónica da próxima edição da “Sábado”, este link, para que todos os interessados possam tomar conhecimento dos protestos aqui exarados e da devida resposta.

TEXTO DE INDIGNAÇÃO N.º 1

TEXTO DE INDIGNAÇÃO N.º 2

Boa tarde.

Li o vosso artigo na “Sábado” nº327 – ¨Sobreviver às Obsessões e li também o artigo de opinião do senhor Alexandre Pais intitulado “São 25 ou mais”. Dou-vos os meus parabéns pelo artigo. Agora ao Senhor Alexandre Pais aconselho-o a ler um pouco, direi mais, tentar saber um pouco mais sobre aquilo que escreve. Sabe porquê? 

Antes de continuar devo aqui pedir desculpa por algum lapso linguístico. Não sou escritor nem tenho nenhum curso de escrita. De volta ao assunto que aqui me trás chamo a atenção a esse senhor para a sua mania nº 18 – “não gosto de jornalistas que se julgam polícias ou juízes”. Não sei se é jornalista mas faz-me lembrar aqueles “CRÍTICOS” de treta que por aí abundam em críticas sempre negativas.

Porque escrevo isto? Porque eu estive lá. COM ELES. Fui convidado por um associado da “DOMUS MATER”, um ex-doente, o meu amigo Pedro, para os acompanhar. Vi o que nunca pensei ver. Fui confrontado com situações que nem sabia existir. Acompanhei-os. Via a sua luta diária para suplantarem as suas POC e dou os parabéns às duas psicólogas pelo trabalho efectuado.

Tente entrar em contacto com a associação, acompanhe-os, entenda-os e depois, depois escreva.

Atenciosamente

Carlos Oliveira

TEXTO DE INDIGNAÇÃO N.º 3

Boa tarde,

Apresento-me como pai de um jovem que tem hoje 21 anos e que sofre da (P.O.C) perturbação obsessiva compulsiva desde dos 5 anos de idade.

Em primeiro lugar gostaria de agradecer à Revista e à Jornalista Tânia Pereirinha pelo interesse e consequente reportagem efetuada e sobre o problema de uma doença que afeta 2,5% da população mundial e que já é considerado o quarto transtorno Psiquiátrico mais comum em todo o mundo. 

Compreendo que uma reportagem deste género só possa abordar superficialmente o tema, mas o facto de ser exibida é por si própria de extrema importância no sentido de a doença  poder vir detectada numa fase ainda  precoce.

Deixo-vos 2 ou 3 exemplos dos problemas com que a nossa família se deparou:

Os anos que demorou entre o aparecimento da doença e o diagnóstico médico, em que nós os pais nos fomos apercebendo à medida que o tempo passava que havia qualquer coisa que não estava bem, mas nem nós nem os médicos, desde os pediatras até psicólogos e psiquiatras, não conseguíamos identificar o problema.

As centenas ou milhares de euros gastos em diversos médicos, medicamentos e  terapias, às vezes com medicação errada (o que já levou o meu filho a ter vários episódios de convulsões).

O nosso desespero e angústia enquanto pais, que apesar de darmos o melhor que podíamos e sabíamos, nos sentiamos incapazes.

A crítica da familia e amigos (já não basta o inferno que é viver uma situação como esta e ainda somos criticados).  

Peço desculpa mas vou dar um pequeno exemplo da ansiedade em que vivem estas pessoas:

Imaginem que recebem um telefonema a dizer que um familiar vosso teve um acidente, a meio a chamada cai e vocês não conseguem contactar a pessoa que vos estava a telefonar nem o vosso familiar presumivelmente acidentado.

Pensem o que sentiriam nesse espaço de tempo até que conseguissem saber qual era a gravidade da situação, pois um doente com POC vive esse estado de ansiedade 24 sobre 24 horas durante anos.  

Por fim posso dizer que só há 2 anos tomei conhecimento desta associação (DOMUS-MATER) e que tem sido com as consultas e terapias efetuadas por alguém que se dedica aos doentes e a doença mais que um simples exercício da sua  profissão que hoje já consigo ver algumas melhorias.

Posto isto , e na esperança que este E-mail possa chegar ao conhecimento do Sr. Alexandre Pais 

Pensando mil vezes nos adjectivos  com que o gostava de o qualificar e não querendo descer ao seu nivel, escrevo apenas que fazer troça de pessoas doentes é dos sentimentos mais baixos que alguem se pode orgulhar.  

E se por acaso quiser ficar mais esclarecido sobre a doença envio-lhe aqui o link de uma reportagem realizada pela JORNALISTA Elisabete Barata e que por sinal passou ontem na TVI.

http://www.tvi.iol.pt/mediacenter.html?mul_id=13302729&load=1&pos=7

P.S. – eu tambem partilho da sua mania n.º 15

Mania 15: não gosto de ser criticado por pessoas a quem não reconheço competência ou cuja opinião não pedi.

Subscrevo-me com elevada consideração

Cumprimentos

Carlos Claro

O QUE DE FACTO EU ESCREVI NA “SÁBADO” DE 5 DE AGOSTO 2010

São 25 mas tenho mais

Não há retiro nas Berlengas que me salve, diria mesmo que sou um caso perdido no que respeita a manias. Também é verdade que vivo bem com as minhas pancadas e que estou velho de mais para me sujeitar a terapias que me merecem, ainda por cima, fortes desconfianças. Já não sei, isso sim, que capacidade de resistência terá a família para me continuar a aturar, sendo claro que essa incerteza faz parte da vida, pelo que é wait and see.

Mania 1: não gosto de falar com pessoas que não conheço.

Mania 2: não gosto de pôr os pés em cima de pingos de água na cozinha ou na casa de banho.

Mania 3: não gosto de roupa suja fora do cesto ou da máquina de lavar.

Mania 4: não gosto que caixas dos supermercados me tratem por você.

Mania 5: não gosto de relógios com o mostrador grande.

Mania 6: não gosto de emprestar livros, CDs ou DVDs.

Mania 7: não gosto de me ver sem a cabeça rapada.

Mania 8: não gosto de computadores portáteis de tampas abertas quando estão desligados.

Mania 9: não gosto dos pratos cheios de comida.

Mania 10: não gosto de ouvir palavrões a despropósito.

Mania 11: não gosto de adormecer com uma simples mosca em casa.

Mania 12: não gosto de melgas na mesa do lado no restaurante.

Mania 13: não gosto da louça atirada à balda para dentro da máquina.

Mania 14: não gosto de comprar roupa de marca e sapatos sem atacadores.

Mania 15: não gosto de ser criticado por pessoas a quem não reconheço competência ou cuja opinião não pedi.

Mania 16: não gosto de estar numa sala sem ver um relógio.

Mania 17: não gosto do sabor do café se for tomado em casa.

Mania 18: não gosto de jornalistas que se julgam polícias ou juízes.

Mania 19: não gosto de hotéis de 5 estrelas onde se ouve o ruído de um qualquer motor durante a noite ou se corta a relva às 7h30 da manhã.

Mania 20: não gosto dos raros momentos em que deixo de ser anónimo.

Mania 21: não gosto de ver portas de casas de banho abertas.

Mania 22: não gosto de quem se resigna à pobreza sem combate.

Mania 23: não gosto de bibelôs e de estantes carregadas de tralha.

Mania 24: não gosto de ler jornais que já foram folheados.

Mania 25: não gosto de ir a funerais – e seria fantástico que ninguém se desse ao trabalho de ir ao meu.

Posto isto, diga-me o leitor: ia eu para as Berlengas fazer terapia a quê?

Observador, publicado na edição impressa da Sábado de 5 agosto 2010

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