Reformados vão ser roubados em definitivo

Aquilo que o professor Adriano Moreira classificou como neoliberalismo repressivo exibe no ataque às reformas a sua expressão mais selvagem. Não pertenço ao clube dos poetas vivos que vê como sagradas as verbas a que têm direito os pensionistas do Estado ou da Segurança Social, ainda que elas façam parte de um contrato que se prolongou por décadas e que foi rasgado unilateralmente pelo mais forte quando lhe conveio, primeiro com a revisão do modo de cálculo, em 2007, a seguir com a brutal onda de cortes dos últimos três anos. Não nos enganemos: Portugal perdeu uma guerra financeira e ficou em ruínas. Recuperar o País – com esta política dos candidatos aos chorudos empregos da alta finança internacional ou com a dos vendedores de ilusões que se escondem atrás dos chavões da reanimação da economia ou darenegociação da dívida – é o caminho a seguir. A célebre frase de Vítor Gaspar, de que “não há dinheiro”, perdurará por gerações, a realidade é o que é.

O que me choca, sim, é a falta de vergonha, evidente na forma como se joga com a opinião pública e com a inveja social, tentando que os não reformados, que apesar de tudo são a maioria, se convençam que mais vale continuar a tirar rendimento à velharia indefesa, uns parasitas que já nada produzem, do que agravar os pesados impostos dos honrados portugueses que trabalham. É com esse intuito salvador, de uma política e de uma face, que se avança agora com os roubos definitivos das pensões.

Mandaria a lógica e uma noção mínima de equidade que se encontrasse uma fórmula que permitisse manter o corte nas reformas enquanto o equilíbrio das contas o impusesse, mas que concedesse a futuros governos a possibilidade de ir repondo os valores antes contratados – nem que fosse ao fim dos 20 anos que Cavaco Silva referiu – aos que vivessem, claro. Não é isso que se entende das frases soltas que a clique governante vai deixando cair, o que se percebe é a intenção de tornar o saque perene e a esperança morta.

Se o que escrevo parece uma evidência, por que é outra, a do absurdo, a escolha de quem manda? Porque a insensatez se instalou na nossa sociedade. Vi há dias uma reportagem num telejornal, com um senhor que escreveu um livro no qual afirma demonstrar que o Serviço Nacional de Saúde não é viável. Cá está, como os malucos, cada um diz o que quer. Mesmo que seja que o senso é errado e o insano certo – com garantia de que a comunicação social logo ampliará a estupidez. Por este andar, em breve veremos quem defenda que os bombeiros só dão prejuízo e que, antes de apagarem os fogos, devem ser obrigados a vender bilhetes. Estamos doentes, caramba.

Observador, Sábado, 3ABR14

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