Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Rafael Leão: das nuvens à baliza em seis segundos

Rafael Leão quebrou uma marca de 12 anos na história das grandes ligas europeias ao gastar 6,7 segundos para assinar o primeiro golo do Milan ao Sassuolo. O recorde anterior pertencia a um tal Joseba Llorente, que em 2008, ao serviço do Valhadolid, levara 7,3 segundos para colar a bola às redes do Espanhol.

A propósito de Espanhol: quem não viu que procure ver a obra de arte que Raúl de Tomás executou ontem, ao apontar um dos golos – aliás, rubricou os dois – do triunfo dos catalães sobre o Almería do português José Gomes. Continuo convencido que o Benfica não soube aproveitar o talento de um jogador que, também é verdade, nos deixou com a sensação de não se ter esforçado grande coisa.

Mas voltando à proeza de Rafael Leão: no final da partida, o treinador do Milan, Stefano Pioli, explicou que Çalhanoglu, Brahim Diaz e Leão “fizeram o movimento certo” no lance vitorioso, fruto de um trabalho levado a cabo nos treinos. O mais curioso é que Pioli – um técnico de 55 anos que já treinou, entre muitos clubes, o Parma, a Lazio, o Inter e a Fiorentina – havia dito, dias antes, qualquer coisa como isto: “Às vezes, parece que Rafael Leão tem a cabeça nas nuvens”.

A frase de Pioli corresponderá, para alguns, ao que julgam ser a personalidade peculiar do avançado português. Para outros, terá sido apenas uma afirmação deselegante. Uma coisa é certa: tivesse ela sido proferida por Jorge Jesus e não faltaria quem lhe conseguisse descobrir conotações racistas. Aliás, terminada a novela Cavani e a ser montada a de Lucas Veríssimo, morta a polémica (?) em torno do resultado das eleições e entrando em banho maria os casos judiciais que direta ou indiretamente envolvem o clube da Luz, a estratégia para manter a “instabilidade” no Benfica gera hoje à volta das declarações do seu treinador – todo um espetáculo.

As piadolas mais recentes, por exemplo, dirigem-se ao que Jesus disse sobre Gedson Fernandes, a quem apelidou de “Gelson”, e ao emblema que o médio ainda representa, que designou por “Totam”. O que acontece é que com o seu estilo único, desinibido, egocêntrico e provocador – “Jardel é o central mais rápido que temos”, eis um recado incendiário – Jorge Jesus dorme melhor para esse lado. Pelo menos, enquanto as bolas baterem nas traves da baliza de Vlachodimos e forem entrando nas redes dos adversários.

Uma última palavra de simpatia para os meus amigos sportinguistas, em particular para aqueles que, em junho, se indignaram, e bem quanto a mim, com uma suposta falta sobre Otávio numa saída a soco de Fábio e com o penálti assinalado a favor do FC Porto. O guarda-redes do Aves acertou em cheio na bola e só depois chocou com o portista… Agora, justamente eufóricos pela liderança da liga, eles estão a acorrer em massa aos balcões dos CTT para retomar o antigo hábito dos cartões de Boas Festas, enviando votos de Feliz Natal a André Narciso. Votos que lhe endereço igualmente a si, leitor.

Outra vez segunda-feira, Record, 21dez20