Quatro reclamações à DECO

Duvido que a DECO me aceitasse as reclamações mas é pena então que não exista outra organização capaz de lhes dar o merecido andamento. Podia apresentar umas boas dezenas delas e só as limitações de espaço reduzem o leque às quatro que escolho para esta crónica. Ora vamos lá.

1. Na primeira linha da minha irritação encontro a continuação da revoltante política que o Estado Novo cultivou, ainda que não ao nível da indigência a que chegámos, e que em 40 anos de democracia não parou de florir: a nomeação de boys para a administração pública. Nem a crise profunda, já que de pudor nem é bom falar, leva o poder a abdicar dos seus serventuários e de servir a clientela. Esta semana, tivemos a notícia de que o secretário de Estado da Cultura contratou para assessor, por 3 mil e tal euros por mês, um consultor de comunicação do PSD. O felizardo, que tem 24 anos e frequentou três workshops – notável currículo – junta-se assim aos três adjuntos e sete técnicos especialistas da secretaria. Calcula-se o nível dessa especialidade.

2. A segunda reclamação vai para a irracional pressão que cavalheiros de posição exercem sobre os árbitros de futebol. Dirigidos por uma clique, os apitadores são escolhidos por critérios duvidosos e preparados de forma ineficaz, exibindo depois alguns deles, no terreno, as incapacidades naturais, a falta de jeito e a incompetência que conduzem os adeptos da bola ao desespero. Ignorando o sofrimento por que os pobres passaram até alcançar o escalão principal, os contestatários – em boa parte para esconderem mediocridades próprias – desancam-nos. Mas poupam, curiosamente, o sistema que gere o monstro.

3. Volto a recordar o guarda Hernano, condenado a nove anos por disparar a arma de serviço na perseguição a um criminoso e ter morto, por fatalidade, uma criança. É que o Supremo Tribunal acaba de reduzir, de nove para seis anos e meio, a sentença de um anormal pelo abuso sexual de uma sobrinha de 11… ao longo de dois anos! Não me conformo com esta justiça.

4. Gostaria, finalmente, mais em modo de petição que de protesto, que Passos Coelho resistisse aos pedidos da sua gente para que cale a boca aos ministros e os impeça de falarem a destempo, dizerem o que não interessava nada que dissessem – e que pode ser mesmo o contrário do que outros já afirmaram, primeiro-ministro incluído. A derradeira marca de excelência veio de Rui Machete, que revelou há dias, metendo-se por seara alheia, que se os juros das obrigações da dívida pública a 10 anos, que estão nos 6%, não caírem para 4,5% ou menos, Portugal terá o tal segundo resgate que nos garantiram que nunca ia acontecer. Passos não consegue largar a escada Magirus. E sejamos justos: como bombeiro, tem feito um trabalho jeitoso.

Observador, Sábado 14NOV13

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