Portugal precisa e merece organizar a Final Eight da Champions

Concedo: foi uma cena exagerada, desproporcionada, algo ridícula. Não era preciso tanta gente importante e tanto “pessoal menor” a pavonear-se por Belém para saudar a vinda para Lisboa da Final Eight da Champions. Sou igualmente sensível ao argumento dos “contras” que a competição não poderia realizar-se na Alemanha, para Bayern e Leipzig não jogarem em casa. Nem em França, devido ao PSG e ao Lyon estarem em prova. Nem em Itália, por causa da Atalanta, da Juventus e quem sabe até do Nápoles. Nem em Espanha, que qualificou o Atlético, e vive na esperança de ver passar o Barcelona e ainda o Real Madrid. Nem em Inglaterra, onde se espera que o City elimine precisamente o Real, uma vez que para o Chelsea a missão de se apurar é quase impossível. E retirando do mapa de candidatos os países das cinco grandes ligas, o que sobra? A Bélgica, a Holanda ou a Suécia, a braços com uma crise pandémica muito pior que a nossa? Ou a Rússia, que tem perto de 600 mil infetados, o triplo da Alemanha, e diz ter “apenas” 8 mil casos mortais, menos que os germânicos (!), o que revela uma ausência de transparência que esconde uma situação sanitária bem mais grave?

É verdade que a Liga Europa terminará na Alemanha e há três clubes alemães em prova, e que a final da Champions feminina será em Espanha, com emblemas espanhóis em competição. Mas além da menor relevância desses torneios em relação ao principal, certo também é que não havia “outro Portugal” disponível – em termos sanitários e de equipamentos desportivos – para se aplicar idêntica norma de neutralidade. E foi assim que Alemanha e Espanha se adiantaram a outros candidatos.

Dito isto, viro a moeda para confessar que me sinto orgulhoso com a decisão da UEFA de atribuir à FPF a organização da fase final da Liga dos Campeões. Porque isso constitui um sinal de confiança na competência da Federação e dos portugueses. Porque coloca o foco da comunicação social estrangeira num pequeno território que necessita de recuperar os fluxos turísticos e a sua economia. E em especial porque, em tempos estranhos e difíceis, com tanta gente desmoralizada, sem emprego e a viver aqueles momentos de desespero em que o Mundo parece desabar, há quem ouse, quem acredite e quem se esforce por levar o país para a frente – em vez de se ficar pelas lamúrias.

Sim, os trabalhadores da saúde estão de parabéns, ainda que preferissem, e justamente, mais dinheiro e melhores condições. Sim, sem eles a contrariarem a irresponsabilidade dos que só pensam em copos e farra, estaríamos tramados – e muito para além do futebol. Sim, Portugal precisa e merece que venha aí a Champions.

Parágrafo final para Cristiano Ronaldo, que vê agravarem-se as consequências do seu salto no escuro que a Juventus tornou mais perigoso quando contratou Maurizio Sarri, um treinador sem unhas para aquela guitarra. A Juve perdeu já a Supertaça e a Taça, e só por milagre se sagrará de novo campeã, tão mal tem jogado e tanta é a falta de forma – e de atitude competitiva – do seu saco de craques. Quanto à Champions, teme-se que não se apure sequer para o mata-mata de Lisboa, o que seria mais uma enorme deceção neste desgraçado 2020. E não sei se o apagamento exibicional de Cristiano – que a imprensa italiana zurze sem vergonha, nem contemplação – não constituirá o fim da fase de ouro da bela história iniciada em 2002. Apesar de saber que há sempre um dia em que o dia chega, quero muito acreditar que não.

Outra vez segunda-feira, Record, 22jun20

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