Parques de merendas, preparai-vos!

Ao levantar a hipótese de reinício do ano letivo a 4 de maio, António Costa abriu a janela da utopia aos que, a cada dia, adiantam novas datas para o recomeço dos campeonatos. Ou para o seu fim, como fez Aleksander Čeferin, líder da UEFA, ao indicar o fecho da época para 3 de agosto.

Mas o primeiro-ministro carrega o peso de uma tragédia que acabará com a sua carreira política se dela não sair como o estadista que aguentou o pior momento do país desde a guerra colonial. E perante a natural hesitação dos cientistas, que não ousam prever o eclipse do pesadelo – ontem, no “Sport”, o epidemiologista catalão Oriol Mitjà apontava para o outono… – Costa sente a necessidade de ter uma visão relativamente próxima do recuo da epidemia e do regresso à normalidade possível. Com isso, tenta que se torne menos duro suportar o confinamento e as outras restrições do estado de emergência. Porque a vida real é a dos que vivem em 50 metros quadrados – ou nem isso – com os filhos em casa e sem computadores, sem internet, sem televisão por cabo e sem Netflix, para não dizer sem seguro de saúde, sem emprego, sem dinheiro para comida e sem perspetiva de futuro.

Pelo seu lado, Pedro Proença é um braço de Čeferin e compete-lhe elaborar planos felizes. E mostrar-se preocupado com o negócio e com os clubes que o elegeram, traçando cenários mirabolantes. Agora, quer terminar as provas nacionais até agosto, o que significaria estar a jogar – com duas partidas por semana – em meados de junho. E voltaríamos ao raciocínio que desenvolvi nas derradeiras crónicas, com o início dos treinos coletivos no final de maio, apesar de as autoridades de saúde terem previsto que só nesse mês a curva estatística de portugueses contagiados deverá descer de forma sustentada, pelo que junho será ainda um mês de forçado isolamento social. Mas o delírio do plano apresentado pela Liga revela-se em medidas anedóticas como uma que propõe para as deslocações internas de jogadores e técnicos. Cito: “A paragem habitual, se necessária, deve ocorrer num parque de merendas com casas de banho ao invés de uma estação de serviço”. Casas de banho em parques de merendas!? Nem o Bruno Nogueira se lembraria desta!

É verdade que o retorno do futebol, para além de mitigar a crise em que mergulhou – até o Liverpool entrou em “layoff”… – faz falta numa Europa que tem milhões de adeptos fechados em casa, mas 650 mil infetados. E voltar à pressa, com jogos à porta fechada que seja, sem garantias – e quem as dará? – de que o contágio não se poderá reacender, é um sonho bielorusso. Bem andou o Benfica ao traçar as suas linhas vermelhas e bem andará o Governo ao travar o aventureirismo.

Proença e Čeferin que olhem para uma das pátrias do futebol, a vizinha Espanha, cujo primeiro-ministro prorrogou o estado de emergência até ao próximo dia 26, avisando que novos prazos se seguirão. La Liga irá também terminar até 3 de agosto? Deixemo-nos de brincadeiras, estão milhares de pessoas a morrer todos dias, meus senhores.

Na Bélgica, tudo aponta para que a Pro League dê o campeonato por terminado, atribuindo o título ao Club Brugge, que era o primeiro classificado, destacado, na altura da suspensão da prova. E se outras ligas seguirem opções idênticas, entre elas não estará a liderada por Pedro Proença, que não ousará considerar o FC Porto campeão e assim afrontar o Benfica – a exemplo da Liga Revelação, de que o Rio Ave é líder isolado, com três pontos de vantagem sobre o segundo… o Benfica. E se fosse ao contrário?

Último parágrafo para Cristiano Ronaldo, que num inquérito realizado pelo diário “Marca” – com a participação, na final, de meio milhão de adeptos – foi eleito o melhor futebolista de todos os tempos, eliminando sucessivamente, Maldini, Zidane, Maradona e… Messi. Há duas semanas, numa entrevista, “rei” Pelé tinha considerado CR7 o melhor jogador do Mundo na atualidade… Chapeau!

Outra vez segunda-feira, Record, 6abr20 (versão integral)

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