Parece que foi ontem: Mário Coluna na miséria

Quando os protagonistas desaparecem, os seus feitos são ampliados e as suas misérias esquecidas. Sim, porque há recordações que doem e, como defendia Nietzsche, sendo o orgulho mais forte é a memória que cede.

MC

A história apagada de Mário Coluna

Quem procurar a coleção do “Diário de Lisboa” no site da Fundação Mário Soares – www.fmsoares.pt – encontrará trabalhos de nomes maiores do jornalismo português. Ainda há algumas semanas, após a morte de Mário Coluna, pude reler a reportagem de Neves de Sousa, “Coluna: cicatriz aberta”, publicada na edição de domingo, 23 de Julho de 1972.
Em quatro páginas, o grande jornalista, um dos maiores repórteres portugueses de sempre, dava conta não da existência gloriosa de uma figura incontornável do Benfica e da Seleção Nacional – “magriço” da gesta de 1966 – mas de um homem desiludido e amargurado, que depois de muitos anos de vida regrada e de poupanças se encontrava na miséria. Habitava então um modesto apartamento da Rua da Bélgica, em Vila Franca de Xira, e estava desempregado – o clube que treinara, o Estrela de Portalegre, descera de divisão. Coluna tinha medalhas e condecorações numa caixa de sapatos, na testa uma enorme ferida que não sarava e no quarto, triste e envergonhada, a mulher, que ele acusava de o ter metido em negócios ruinosos.
A exigir-lhe dinheiro, segundo revelava, andava outro “magriço”, Hilário, que Coluna desancava na reportagem de Neves de Sousa. Ele dizia falar também em nome de colegas como Lourenço, Figueiredo ou Pedro Gomes, enquanto os processos judiciais corriam e o “monstro sagrado” jurava nada ter recebido desses “credores”. A espiral de solidão e abandono que se seguiu só terminaria quando Moçambique o fez voltar a casa – para ser ministro do Desporto e presidente da Federação de futebol – devolvendo-lhe a honra e a dignidade com que pôde viver até ao fim.

Arruinado

Em 1970, com 35 anos, Coluna desistiu de integrar a equipa técnica do Benfica para jogar uma época no Olympique de Lyon, França, por 15 contos/mês. Nesse ano, o clube da Luz fez-lhe uma festa de despedida, cuja receita serviu apenas para pagar dívidas. Coluna estava num beco sem saída. Vinham aí os anos do esquecimento.

Parece que foi ontem, Sábado, 15MAI14

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