Ricos para sempre e pobres toda a vida

A presença de Ricardo Salgado no Parlamento, que abriu a catadupa de audições a outros elementos da corte familiar desavinda, acentuou de forma mais clara do que nunca a necessidade de afirmação e avidez de protagonismo de alguns deputados.

Daquelas comissões de inquérito sabemos que pouco mais sai do que os generosos tempos de antena concedidos pelos canais de televisão, tanto a quem presta esclarecimentos de utilidade duvidosa, como a quem pergunta, por vezes com o tom amargo de inquisidor frustrado. É a natureza humana no seu triste esplendor.

Claro que com Ricardo Salgado a ânsia de brilhar só podia aumentar. Uma coisa é confrontar os poderosos que ganham a vida como empregados, outra, bem diversa, é ter à frente os ricos verdadeiramente ditos, ainda por cima com o dever de responder mesmo à inquirição mais imbecil.

Faz-me lembrar a velha história, verídica, daquele homem que veio da terrinha para a capital e que conseguiu um lugar na PSP. No dia seguinte, foi ao café do bairro onde morava, ligou para a família e falou de modo a que todos ouvissem: “Pai, entrei para a polícia, agora até mando nos engenheiros e nos doutores!”

Terminada mais esta feira de vaidades em São Bento, haverá apenas uma certeza: os Espírito Santo continuarão se calhar errados mas ricos e os perguntadores permanecerão talvez certos mas pobres. A vida é injusta.

Observador, Sábado, 23 DEZ14

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