Os golos do Pais e os comentários de Fernando Esteves e Luís Rosa Mendes

Isto hoje é pessoal.

Fui pela primeira vez jornalista aos dez anos. Não por vocação pelo jornalismo; por devoção ao Benfica. Entre os verões de 1983 e 84, escrevi um semanário pessoal do campeonato. Todas as segundas-feiras, deitado no chão do quarto, em Viseu, escrevia a ficha e descrevia o jogo. Não eram fotografias secas, eram pinturas vivas. Cada golo do Nené era o nascimento de um planeta, uma cabeçada do Stromberg era um mar arrebatador, um remate do Filipovic era a sublimação da humanidade; as defesas do Bento eram próprias dos deuses, as fintas do Diamantino, os cruzamentos do Carlos Manuel, os cortes do Pietra, as subidas do Álvaro, cada jogo era uma epopeia gloriosa de uma gesta heróica, cada golo era um golpe homérico de espada por Helena, a mulher mais bela do mundo, nas praias de Tróia.

Naquela altura os nossos olhos não eram as televisões. Eram os jornais. Era pelas palavras escritas que nós víamos os golos, que sentíamos os cheiros dos estádios, os desenhos das fintas, os penaltis roubados. Vinte paus e lá ia eu aos Agostinhos, na Rua Formosa, comprar o jornal para o meu pai. “Era o Record, o Primeiro de Janeiro e duas pastilhas Pirata se faz favor”. Então eu lia o que outros olhos haviam visto. E depois escrevia o que os meus olhos, através das suas palavras, visualizavam.

Este não é um texto nostálgico, é um texto sobre a importância do jornalismo, e da palavra escrita, então como agora. É um texto sobre a honra e a responsabilidade de escrever no Record. É um texto sobre essa alegria, essa espécie de sonho de criança, que devo ao director deste jornal, que hoje sai e com quem tanto aprendo; ao homem que depois de hoje fica e de quem me tornei admirador; ao Alexandre Pais.

Não tenho uma relação pessoal especial com o Alexandre. Mesmo que ele estivesse para isso, eu não conseguiria: o Alexandre está numa altura que eu não alcanço – mas persigo. É a estatura que só a nobreza conquista. Prefiro essa única palavra ao desfile de muitas outras, possíveis e justas, mas que sacrifico para valorizar uma só: a palavra nobreza.

O Alexandre convidou-me para ser colunista do Record há três anos e, a cada semana, eu tentei servir os seus leitores e honrar o seu convite. Tenho muito retorno dos leitores, participando, criticando, concordando, divergindo. Gosto de andar à chuva e molho-me amiúde . Tive direito a uma conferência de imprensa de João Lagos, por ter escrito que a sua empresa estava falida, ele desmentiu-me e acusou-me de ser invejoso e querer destruí-lo, quando eu comentei um facto, triste mas verdadeiro. Fui processado pelo Benfica por questionar a venda de Roberto, sendo acusado de usar como arma do crime “alegações de inverdade, insinuações, ironias dissimuladas de piadas humorísticas e até rimas” (nunca me tinha passado pela cabeça ser processado por rimar…). Tive direito a um comunicado ridículo do presidente do Sporting por ter defendido a reestruturação financeira do Sporting mas dito que ela é opaca e inclui um perdão de dívida (o que é verdade, como se verá). Só não tive até hoje problemas com o Porto: têm as suas manias mas não são, de facto, copinhos de leite.

Fiz também amigos por causa desta coluna. Aprendi muito sobre o mundo do futebol. E continuei aprendendo com o Alexandre, continuando a ler seus textos, com o seu exemplo, com a sua conduta. Acreditem em mim, eu sei o que é ser director de um jornal, sei o que são pressões, impressões, telefonemas, exigências. Nestes anos, tive problemas de que não me queixo mas receio ter criado alguns ao Alexandre. Nunca me telefonou. Nunca me pediu nada. Nunca se esquivou a um incómodo, pediu para tirar uma palavra ou acrescentar uma nota. Nunca. Isto mostra a força de um director. Isto revela a cepa de um homem.

É por isso que isto hoje é pessoal. Porque serve para dizer da honra imensa que é escrever no Record, o maior e melhor diário desportivo português, que hoje é (bem) entregue pelo Alexandre Pais. No jornalismo, a glória nunca perdura no espaço público, mas a honra fica para sempre na admiração privada. Salve Alexandre Pais. Longa vida. A ti e ao teu legado. Como os golos do Nené.  

Crónica de Pedro Santos Guerreiro, diretor do Negócios, publicado na edição impressa de Record de 18 julho 2013

“Este texto do Pedro Santos Guerreiro podia ter sido escrito por mim, se para tal tivesse o talento. Tive com o Alexandre Pais a mesma história. Escrevi para uma publicação que dirigia, durante 3 anos, uma crónica de televisão. Semana sim, semana não dizia mal de alguém que o Alexandre, meu director, responsável pelos textos publicados, admirava, ou de quem era amigo. Nunca recebi um telefonema a pedir-me para mudar uma linha que fosse. Nunca lhe pressenti a menor repreensão no olhar, na voz. Eu escrevia, ele publicava mesmo discordando.
Em 2 ou 3 ocasiões usou o seu editorial para escrever a sua discordância, mas sempre depois de o meu texto estar publicado e sempre justificando porque discordava. Apenas num dia me telefonou, logo de manhãzinha porque nessa madrugada lhe tinha enviado o texto e ele perguntava se eu estava mesmo seguro se era aquilo que queria publicar. Achava que o texto “estava forte demais, que era capaz de dar problemas”. Respondi-lhe que ia já enviar outro mais suave, já que ele via inconveniente naquele. Respondeu que não. Ia publicar e logo se via. Resultado: deu processo. E ao longo dos meses em que andámos a correr os dois para o tribunal de Oeiras nunca houve da sua parte qualquer tipo de recriminação ou censura.
Solidário esteve a meu lado até à leitura da sentença que, embora ainda hoje a considere injusta no que me diz respeito, teve o mérito de o ilibar e mandar em paz. Nunca lhe poderei pagar o incómodo, os vários incómodos que lhe causei, como também nunca lhe poderei pagar a lição de jornalismo, de honra, de solidariedade. Vou abatendo na divida com amizade sincera e respeito incondicional.”
Luís Rosa Mendes, in Facebook
 
“Não fui jornalista aos 10 anos. Nunca criei um semanário desportivo. Não fui processado pelo Sporting por causa das crónicas que escrevo. Nem pelo Benfica (uma mancha que me entristece). Não sou director de jornal. Ou seja, até hoje pouco me ligava ao Pedro Santos Guerreiro em matéria de opinião desportiva. Até hoje. O dia em que ele escreve o texto que eu, se tivesse o seu talento, poderia ter escrito. 
Também para mim o Record é uma referência infantil; também eu comecei a publicar crónicas no site do jornal pela mão do Alexandre Pais – o Tó Mané – e, finalmente, também para mim o Alexandre é um modelo de liberdade (pergunto-me que outro jornal desportivo me permitiria escrever as alarvidades portistas que habitualmente publico). 
Há algumas coisas que, sem ser seu amigo pessoal, sei sobre ele. Sei que não é uma pessoa consensual – a frontalidade é, entre nós, muitas vezes confundida com arrogância e altivez. Sei também que o seu percurso no Record não foi feito sem que alguns tenham ficado pelo caminho – as baixas, como se sabe, são o preço a pagar nas guerras para alcançar a paz. Sei, por fim, que parte tranquilo e que, como diria o outro, vai “continuar a andar por aí”. Congratulo-me por isso – eu e muitos outros que, como eu ou o Pedro Guerreiro, aprenderam a admirá-lo.”
Fernando Esteves, in Facebook

 


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