Os culpados pela indisciplina escolar

Um estudo divulgado a semana passada dá conta do preocupante aumento da indisciplina nas escolas portuguesas. O contrário, reconheço, é que me espantaria. Oito em cada dez professores concordam no agravamento do problema, dividindo as responsabilidades, quase em partes idênticas, pelos pais, pelas políticas governamentais e pelos alunos. Apenas 3% dos inquiridos atribui as culpas pelo triste fenómeno aos próprios docentes.

O tema é complexo e merece análise profunda, pelo que me limito a dar uma simples opinião. Quanto ao envolvimento dos progenitores, ele é evidente e compreende-se até que as dificuldades aumentem na medida em que o dinheiro vá faltando para as despesas familiares básicas. A desilusão e a amargura no que respeita às perspectivas de futuro igualmente não contribuem para um ambiente saudável. Mas a verdade é que a indiferença dos pais, a falência dos princípios – ai, a sofreguidão pelo consumo! – e o desprezo pelos valores já vêm detrás. É um longo percurso de demissão.

Se as políticas dos governos têm sido erradas, e não o serão por escassez de currículo dos últimos titulares da pasta da Educação, os cortes orçamentais, a redução de pessoal e a guerra eterna com os sindicatos só podem ter gerado maior insatisfação e revolta. A tempestade social tem custos elevados.

Finalmente, apontar o dedo aos alunos pela indisciplina é quase o mesmo que atribuir aos pobres as culpas por se encontrarem na miséria. As crianças e os jovens são muito aquilo que lhes é permitido ser – é a velha história do tempo, que vai desgraçado, e das circunstâncias, que são dramáticas. Não vivemos no melhor dos mundos, exige-se o que não existe para dar.

Mas os alunos são, também, muito do que vêem fazer os mais velhos. E sendo hoje a televisão – o mestre que todos têm em casa – cada vez menos um veículo de formação e cada vez mais uma janela aberta para a futilidade e para a violência, que esperar de jovens desenraizados, sem horizontes e que têm na caixa mágica o único divertimento? Por ela, conseguem acompanhar, aliás, o deplorável comportamento e o soez palavreado de alguns professores, quando se manifestam. E com exemplos desses não há disciplina que resista.

Nota – A propósito da crónica sobre Adolfo Suárez, o leitor José Leite de Oliveira alerta-me para o facto de, segundo as suas fontes, também Santiago Carrillo, secretário-geral do Partido Comunista espanhol, ter enfrentado os golpistas, no Congresso de Deputados, em 1981. Não me custa acreditar, pelo que deixo o reparo e renovo a admiração por todos aqueles, de direita ou de esquerda, que em nome da sua consciência vencem o medo para dizer não.

Observador, Sábado, 17ABR14

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