Os cabotinos são agentes do inimigo

Em Hollywood, não faltam estrelas desempregadas. E não, não se trata de mais um drama nascido da pandemia, mas de um velho problema. A indústria do cinema leva muito a sério a lógica do negócio e apesar de alguma cedência ao peso dos nomes no cartaz e aos caprichos de quem paga o filme, o “casting”, que escolhe os atores com o perfil certo para os papéis, é para ser respeitado.

Por cá, os estúdios das novelas cedo foram tomados por uma espécie de “padrinhos” que formaram os seus grupos de gente amiga, com os quais subvertem o princípio da seleção pelo mérito: são os papéis que têm de “encaixar” nos atores – naqueles atores e dê por onde der.

Com Cristina ou sem ela, a TVI lá vai logrando vencer aqui ou ali a SIC. Nas novelas do “prime time” é que nada feito. Tanto “Nazaré” como “Terra brava” conseguem um “share” muito superior a “Amar demais”, por vários motivos mas em particular por um: os seus intérpretes são, de um modo geral, melhores e mais adequados às personagens.

A TVI, ou se liberta do colete de forças dos sempre os mesmos nas novelas – e dá primazia ao talento e à competência – ou nunca liderará sustentadamente as audiências. Cada cabotino instalado no estúdio é um agente do inimigo.

Antena paranoica, Correio da Manhã, 10out20

Nota – Na crónica hoje publicada no CM, alguém resolveu mexer no texto original, alterando (sem justificação) a expressão “uma espécie de padrinhos” para “uma espécie de padrinho”, mas mantendo o plural no verbo seguinte, fazendo com que a frase ficasse “uma espécie de padrinho que formaram”. Podia ter acontecido ser eu, mas no caso o analfabeto foi outro.

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