Os bruxos, as crenças e o diabo

A saída de Octávio Machado do Sporting já é uma das excelentes notícias deste verão. Não por os leões terem perdido um fator de equilíbrio e conhecimento cuja falta se fará sentir nos dias difíceis que necessariamente chegarão. Mas porque Octávio poderá assim prosseguir o seu trabalho no comentário audiovisual – e na CMTV, espero – em que é um dos melhores. E é-o por dois motivos claros: saber do que fala e não ter medo de ser inconveniente para os poderes instalados.

Aliás, ele não poderia ter regressado a estúdio de maneira mais feliz do que sucedeu há dias, desmistificando esta acéfala história da bruxaria ligada ao futebol – ui, onde isso nos levaria!… – quando, a propósito do golo falhado por Bryan Ruiz, num desafio contra o Benfica, brincou: “Se calhar, foi o Nhaga que desviou a bola…” Na mouche.

Não entendo, de facto, como pelo meio do agitar destas supostas tramoias, descobertas através do roubo de mensagens privadas – que quem de direito investigará, por certo, a par do peso eventualmente doloso dos seus conteúdos – se mistura o simples ridículo com o crime. Que interessa aos adeptos, aos dirigentes, aos técnicos, aos jogadores ou aos australopitecos se um determinado clube contrata um bruxo, um feiticeiro ou apenas um louco varrido para fazer umas mezinhas apontadas ao sucesso da sua equipa? E acontecendo, isso é ilícito porquê?

Nestas coisas do Além, seja de fé ou de crenças avulsas para gostos variados, cada qual acredita no que quer. Ainda agora, regressámos da Taça das Confederações sem derrotas, com três vitórias e dois empates, o que não desviará Fernando Santos do hábito de se persignar e beijar a imagem que traz no bolso, antes do início de cada partida – na boa linha de Scolari e da sua célebre devoção pela Senhora de Caravaggio. E se nos lembrarmos que ontem, aos 90 minutos, a Seleção perdia, após ter falhado mais um penálti e sofrido um autogolo – em duas intervenções do próprio anjo das trevas – pergunta-se: quem terá guiado a perna direita de Pepe para chegar àquela bola e quem terá traçado a trajetória perfeita que a levou a afastar-se de Ochoa?

No seguimento da conversa, dou comigo a interrogar-me que poder oculto protegerá Eliseu, que perde a titularidade no Benfica e retorna porque Grimaldo gripa muito o motor, e que fica sem lugar na Seleção e logo o recupera por lesão de Raphael Guerreiro. E que bem jogou Eliseu na Rússia!

Do mesmo modo me questiono sobre a força satânica que perseguirá o excelente Miguel Layún, que depois de estranhamente encostado às boxes no Dragão se despediu da Taça das Confederações com participação direta nos dois golos que derrotaram a sua seleção. Eu juro que não acredito, mas lá que eles andam aí, andam.

Outra vez segunda-feira, Record, 3JUL17

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