Os bobos do recreio

Não vou engrossar o coro de críticas a “Supernanny” porque desde 2010 perdi a conta às ocasiões em que condenei aqui os programas que exploram crianças. E vejo até com algum gozo a “indignação” vinda daqueles papás que expõem os filhos a torto e a direito nas redes sociais – por simples vaidade e tantas vezes de modo grotesco.

O problema de “Supernanny” é que marca a fogo as pequenas vítimas e as sujeita ao terrível fenómeno do “bullying”. Porque há uma grande diferença na exposição pública em ambientes de certa forma construtivos, como os concursos onde os miúdos cantam ou mostram o seu jeito para a cozinha, e em que aprendem a superar-se, a competir e a perder, e o protagonismo numa produção como a da SIC.

Frente às câmaras, as crianças são forçadas a reproduzir – e talvez a ampliar o drama de acordo com o guião – as birras que escondem de estranhos e que só a reserva do espaço familiar encoraja. Pagam assim o triste cachê dos pais, colando ainda na testa as etiquetas de bobos e patetas que usarão, a partir do dia seguinte à transmissão do programa, nos recreios das suas escolas. Não há defesa da pedagogia que justifique uma humilhação que o tempo dificilmente apagará. É só isso que me dói.

Antena paranoica, Correio da Manhã, 27JAN18

 

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