Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Ole Einar Bjørndalen

Quando Lance Armstrong reconheceu ter ganho sete Voltas a França em bicicleta dopado, senti a maior desilusão da minha vida de desportista e adepto do desporto. O ciclista norte-americano voltaria ao local do crime, aos 38 anos, já depois de se ter retirado uma vez, para uma oitava tentativa que terminou com um mesmo assim extraordinário terceiro lugar individual e primeiro por equipas. Terá recorrido de novo às drogas?

Calculo que quanto mais passam os anos maior será a tentação da batota, embora eu tenha visto portugueses limpos, como Venceslau Fernandes, vencer a Volta a Portugal aos 40, Joaquim Agostinho chegar à frente a Alpe d’Huez e subir ao pódio final, aos 36, e correr o seu último Tour – ainda com um ótimo 11.º lugar – também aos 40, e Carlos Lopes arrebatar o ouro olímpico da maratona aos 37 e sagrar-se campeão mundial de corta-mato aos 38.

A verdade é que desde a deceção Armstrong o êxito ligado à longevidade me deixa desconfiado. Chris Horner, outro ciclista norte-americano, venceu a edição de 2013 da Volta à Espanha, aos 41 anos, sem suscitar grande euforia porque só o tempo dirá se alcançou a incrível proeza com ou sem ajudas. Mas esse caso não me preocupa, o ciclismo perdeu crédito, tanta tem sido a aldrabice. Hoje, viro-me para outra modalidade de excelência, pouco popular em Portugal: o biatlo, que reúne o tiro ao alvo, com espingarda, e a corrida na neve, sobre esquis.

O maior campeão dessa especialidade de inverno é o norueguês Ole Einar Bjøerndalen, que completou em janeiro 40 anos, com este simples currículo: participação em cinco Jogos Olímpicos, conquistando 11 medalhas, sendo 6 de ouro, 38 medalhas em campeonatos do Mundo, com 19 de ouro, e 473 provas disputadas na carreira, das quais venceu 124, ficou 111 vezes em segundo ou terceiro e 113 no top 10. Em 1992, arrebatou a sua primeira medalha nos Mundiais de juniores de Canmore, no Canadá. Agora, está em Sochi, na Rússia, para a sua sexta Olimpíada, depois de vulgares desempenhos nas últimas duas épocas – que a idade diz-se que não perdoa.

No sábado, sentei-me para ver a primeira das seis provas do biatlo destes Jogos, os 10 km sprint, temendo a humilhação de um deus do desporto. Bjøerndalen começou bem mas errou um tiro na segunda série e teve uma volta de 150 metros de penalização, uma perda de 20 e tal segundos. Mas os favoritos Martin Fourcade e Emil Svendsen falharam também disparos, os mais novos – quase 20 anos! –, embora perfeitos a atirar, foram menos rápidos, e a lenda, de modo absolutamente inacreditável, voou para a meta e venceu, igualando o recorde da 12.ª medalha olímpica e tornando-se o mais velho atleta de sempre a conquistar um título individual nos Jogos. E tem ainda mais cinco provas* para tentar a 13.ª medalha, que lhe dará o máximo absoluto.

Vou ter de aguardar e rezar – na esperança de que a droga não me mate duas vezes.

Observador, Sábado, 13FEV14

*Entretanto, Bjøerndalen ficou em 4.º lugar na prova de perseguição – falhando por 1,7 segundos o bronze que constituiria a 13.ª medalha –, em 34.º nos 20 km e em 22.º na partida em linha, ganhando enfim a 13.ª ao alcançar o ouro na estafeta mista. Fica a faltar a estafeta masculina, que lhe poderá dar a 14.ª medalha…